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Asfalto na Floresta: BBC Brasil percorre a BR-319 na

Amazônia

Para uns, “estrada da destruição”; para outros, “rodovia do futuro”, a BR-319 (Porto Velho-Manaus) – construída na década de 70, parte do projeto do governo militar brasileiro de integrar a Amazônia, e abandonada na década seguinte – é uma síntese dos desafios fundamentais para a região: preservar e desenvolver.

O repórter da BBC Brasil, Eric Camara, está percorrendo os quase 900 quilômetros da rodovia – já pavimentados ou ainda esburacados – para ver de perto como o polêmico reasfaltamento da estrada deve afetar a vida dos moradores e a natureza da região.

Críticas e elogios, a polêmica continua

Embarcamos em Manaus de volta a Londres nesta quarta-feira. Nos últimos 12 dias, a BBC Brasil dedicou este espaço exclusivo à polêmica sobre a reabertura da BR-319, entre Porto Velho e Manaus.

No decorrer da expedição pela BR-319, houve pouco espaço para críticas aos planos de asfaltamento da estrada. Nada mais natural, pudemos constatar, diante do abandono em que muitas comunidades vivem.

Faltam escolas, falta transporte, falta saúde… Só não faltam comida e esperança. No primeiro caso, a Floresta Amazônica é sinônimo de fartura; no segundo, voltamos à reabertura da BR-319.

Em locais como a aldeia indígena Tucumã, a cerca de um quilômetro da estrada, o reasfaltamento é visto com certa desconfiança – ou suspeita de que o asfalto vá atrair mais grileiros e fazendeiros –, mas ninguém se diz contra.

“Vai ser positivo? Olha…”, me disse, pensativo, o cacique Luiz Apurinã.

Centenas de quilômetros adiante na estrada, essa desconfiança vira medo. Marli Schroeder, uma imigrante catarinense loura de olhos azuis que vive isolada em uma fazenda de gado já se sente insegura.

“Ouvi dizerem que aqui tinha muita grilagem e até matança por causa de terra. Disso tenho medo.”

Nem por isso ela é contra a estrada. Muito pelo contrário, ela defende a reabertura vigorosamente, lembrando que hoje em dia, as mulheres de sua fazenda vão à cidade mais próxima, Humaitá, apenas uma vez por ano.

Foi preciso chegarmos a Manaus para encontrar vozes que se opõem frontalmente ao asfaltamento – cientistas como Philip Fearnside e Mario Cohn-Haft, que dedicam a vida a estudar a Amazônia.

Foi também na capital amazonense que encontramos o principal advogado da causa: o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, que desde 2005 vem trabalhando pela reabertura da BR-319 dentro do governo.

“O grande perigo que nós podemos correr, eu insisto em dizer, é deixar a estrada do jeito que está. O Estado não está presente lá, e as pessoas vão ocupar essa região se nós não cuidarmos de colocar o Estado a cuidar, a preservar essa região tão importante”, disse o ministro à BBC Brasil.

Pelo menos sobre a importância da área, Nascimento e a comunidade científica parecem estar de acordo.

Já sobre a forma de preservá-la, as opiniões são diametralmente opostas. O especialista em avifauna do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Mario Cohn-Haft, diz que o que o ministro chama de risco é a solução mais barata para evitar a devastação.

“Aquela região só está preservada, porque a estrada está abandonada há mais de vinte anos”, disse o cientista, que descobriu duas espécies de pássaros até então desconhecidas para a ciência em áreas próximas à BR-319.

Philip Fearnside, também do Inpa, criou modelos de desmatamento baseados na dinâmica de desmate registrada em outras estradas e chegou à conclusão de que as perdas só na área mais próxima à rodovia poderiam chegar a até 33% da mata.

No entanto, ele destaca que a preocupação maior é que o asfalto na BR-319 pode levar a devastação até Roraima, por causa da migração de pessoas de Rondônia e do arco do desmatamento para a região central da Amazônia, Manaus e mais ao norte.

Além disso, ele teme que o impacto das estradas transversais à BR leve a derrubada a regiões até hoje completamente inacessíveis no oeste da Amazônia.

“Isso poderia abrir uma enorme área de terras do governo, uma área do tamanho de Rondônia, que ficaria suscetível à invasão de pequenos produtores sem-terra e do Movimento dos Sem-Terra, além de grileiros”, afirmou Fearnside.

Fábio Rohe

Os argumentos são fortes de todos os lados.

Para mim, quem melhor resumiu a situação foi outro cientista, o primatólogo Fábio Rohe, da Wildlife Conservation Society, que trabalha em um projeto de levantamento de espécies na BR-319 em parceira com a Universidade Federal da Amazônia (Ufam).

“Sem dúvida é uma região em que as pessoas precisam de muitas coisas para ter melhores condições de vida. A ideia é a gente tentar chegar neste meio termo para que não se acabe com toda a natureza, mas que as pessoas possam ter uma vida melhor.”

Dia 9: Fim de linha depois de 6 dias na BR-319

Foram seis dias e cerca de 900 quilômetros de barro, algum asfalto, buracos e muita, mas muita floresta. Finalmente, neste domingo, completamos a BR-319 de Porto Velho a Manaus.

Vimos botos cor-de-rosa, jacarés, araras, papagaios, mutuns, cotias, anta (pelo menos pegadas), sem contar com uma infinidade de plantas e insetos que a minha ignorância não me permite enumerar.

Isso sem nos afastarmos da estrada. Imagina o que existe lá para dentro…

Ao mesmo tempo, conversamos com ribeirinhos que já tiveram malária mais de 20 vezes, jovens de 18 anos que nunca foram a uma escola, cidadãos brasileiros que são obrigados a andar dezenas de quilômetros para tirar qualquer documento, índios que acham que conforto é dormir na rede e não no chão.

E no meio disso tudo, o Exército brasileiro, que muitas vezes parece ser o único braço oficial longo o suficiente para alcançar os cantões da Amazônia.

Nunca pensei que no fim da viagem fosse ter uma opinião definitiva sobre a reabertura ou não da BR-319. E de fato, a viagem me deixou ainda mais indeciso.

Em um lugar como o paradisíaco Igapó Açu, onde botos rosa comem peixe na mão dos moradores, que tomam banho nas águas limpas literalmente ao lado da barca que faz a travessia dos carros, a tendência seria ser contra a estrada.

Os próprios moradores têm visões peculiares sobre o tema: uns dizem que querem a estrada asfaltada apenas entre Manaus e Igapó Açu, para evitar que a vila de pescadores vire local de passagem.

Outros dizem querer tudo asfaltado até Porto Velho e confiam nos planos do governo de criar e monitorar unidades de conservação para evitar a ação de grileiros e madeireiras ilegais.

Mas como ser contra a estrada quando todos os anos, dezenas de pessoas pegam malária e precisam de atendimento médico imediato, embora fiquem a mais de 200 quilômetros do hospital mais próximo.

Como ser contra o asfaltamento, se na época das chuvas, com a estrada impassável, o barco é a única opção, levando quatro dias de viagem?

Centenas de quilômetros mais ao sul, a fazenda dos Catarinos cria gado de corte para Humaitá. Mas na época das chuvas – seis meses por anos, é bom lembrar – fica praticamente isolada por falta de condições na estrada.

Como fica a produção, o ganha-pão das famílias que vivem na fazenda nesta época?

Mesmo entre Porto Velho e Humaitá, na vila Renascer, a carência de transporte público dificulta a educação dos jovens.

Um assunto poucas vezes comentado nesta polêmica é o potencial turístico da região.

A chamada “estrada parque”, como querem os defensores da reabertura da BR-319, poderia dar um forte impulso à atividade turística da região, à qual não faltam atributos naturais.

No entanto, para fazer com que os 27 parques no entorno da BR-319 sejam respeitados, o governo em todos as suas esferas vai ter que trabalhar dura e eficientemente.

Em uma área tão grande, isolada e com tantas riquezas naturais, placas e ameaças não são armas suficientemente ameaçadoras para impedir a ação dos desmatadores.

Dia 8: Uma espinha de peixe sobre um mar de verde

ASFALTO NA FLORESTA

Esta igreja permaneceu fechada durante todo o tempo em que a equipe permaneceu em Igapó Açu.

Ver a BR-319 de cima é provavelmente a maneira mais rápida de se entender o que está em jogo na discussão sobre a reabertura ou não da rodovia.

Com a autorização de funcionários encarregados da manutenção de uma das mais de 40 torres da Embratel que garantem o bom funcionamento da infra-estrutura de telecomunicações da região amazônica, pode-se escalar as estruturas e ver a floresta de cima.

O que se enxerga é verde para tudo quanto é lado e uma cicatriz amarelada, com manchas pretas de asfalto – a BR-319.

Do alto, o isolamento das pessoas que vivem às margens da rodovia, hoje uma trilha esburacada, é literalmente visível. A distância entre as comunidades é enorme.

Por outro lado, não é preciso ter muita imaginação para se visualizar o estrago que estradas secundárias – já planejadas pelos governos estaduais – poderia fazer.

Basta imaginar cicatrizes transversais à rodovia, e daí, outros pequenos cortes também transversais. É o chamado “efeito espinha de peixe”.

Um dos mais respeitados especialistas em Amazônia, o professor Phillip Fearnside, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), publicou um estudo recentemente afirmando que o impacto da BR-319 e suas transversais pode derrubar até 33% da floresta intocada.

Por outro lado, o governo brasileiro, ou pelo menos os defensores da reabertura da estrada dentro dele, refutam essa ideia, sob o argumento de que a criação de 27 unidades de conservação ao longo da BR-319 vai proteger a região.

O conceito foi até apelidado de “estrada-parque” pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No entanto, outra coisa fácil de perceber de cima é a dificuldade de fiscalização de uma área tão vasta.

Perto de Manaus, civilização retorna – e também os sinais de destruição

Em conversas com moradores, a opinião é praticamente unânime: a estrada seria extremante útil; mas ao mesmo tempo, eles também querem ver a proteção da floresta.

Indo de Igapó Açu até Careiro, perto de Manaus, tem-se a nítida impressão de estar voltando à civilização: mais carros, asfalto melhor (já sendo reconstruído pelo Exército) e muito mais áreas queimadas.

Regularmente aparecem as áreas queimadas coladas à BR-319. Coincidência ou não, a incidência destes campos queimados – para transformar a floresta em pasto ou em lavoura – é bem mais visível nas partes já reasfaltadas pelo Exército.

Será que, se voltarmos em dois anos ao trecho fechado da rodovia, caso o projeto de recapeamento da BR seja aprovado, veremos a repetição desse efeito por lá?

Dia 7: No vilarejo esquecido, os botos cor-de-rosa

Um helicóptero, uma cotia e um filhote de jacaré foram alguns dos obstáculos que encontramos na pista da BR-319 nesta sexta-feira.

As más-condições da rodovia são impressionantes: pontes de madeira empenada que parecem que vão cair a qualquer momento, trechos inteiros de barro em que não sobraram vestígios do asfalto e buracos capazes de engolir um carro inteiro.

Não cruzamos com nenhum carro, e em várias partes, a velocidade média não passa de 10 km/h.

Em compensação, um helicóptero particular estava parado no meio da pista. Parecia estar sendo reabastecido, obrigando-nos a parar.

Ao tentarmos nos aproximar, o piloto sinalizou que ficássemos longe. Nossos guias do Jipe Clube de Porto Velho desconfiam de que se tratassem de traficantes.

Como a aeronave decolou sem que pudéssemos conversar, não saberemos com certeza.

Mais adiante, um filhote de jacaré se banhava em uma das poças de lama deixadas pela chuva.

Tudo isso, entre trancos e sacolejos. Nem de longe pudemos enxergar pessoas.

Para quem sai de Porto Velho, Igapó Açu é a primeira comunidade depois de mais de 400 quilômetros de estrada deserta.

O vilarejo ribeirinho paradisíaco, com pouco mais de 30 famílias, poderia ser cartão postal da Amazônia. Se fosse possível chegar até lá.

Diariamente, três botos cor-de-rosa visitam os moradores perto da balsa que faz a travessia do Igapó Açu. Mansos, os animais tiram peixes das mãos dos locais, se afastam e logo voltam novamente para pegar mais comida.

Segundo os moradores, a relação com os botos vai mais longe e vira parceria quando o assunto é pesca, a principal atividade econômica da região.

Os animais ajudam a encurralar os peixes. Os pescadores, por sua vez, retribuem a gentileza com o produto da pesca.

Nas atuais condições da BR-319, a comunidade vive praticamente isolada do resto do país.

A escola local tem quase noventa alunos, mas o número de crianças passa de 120. Algumas famílias não podem matricular os filhos por falta de documentos.

E, segundo os moradores, isso significa uma fraca presença das autoridades. Principalmente quando o assunto é saúde.

“No ano passado, morreu um senhor a caminho de Careiro em um barco. O pior é que foi de uma pneumonia que tinha acabado de começar”, diz um.

Outro afirma que já teve malária quase 30 vezes, e que está comemorando pela primeira vez dois anos sem a doença.

A reabertura da BR-319 pode mudar isso. E, como em outras comunidades, a população espera por isso há 20 anos.

No entanto, a esperança se mistura com desconfiança.

“Nós sabemos que a estrada vai facilitar o escoamento dos nossos produtos, mas também vai trazer mais gente para cá”, afirmou Adílson Barreto.

“Hoje nós não temos criminalidade aqui, não temos problemas para nos alimentar. Temos uma vida boa.”

Dia 6: Posto abandonado e grileiros

ASFALTO NA FLORESTA

A catarinense Marli Schroeder se mudou para o Amazonas há 19 anos, quando a rodovia já tinha sido fechada.

Poucos quilômetros antes da parte mais deserta da BR-319 existe um posto de gasolina. Abandonado há cerca de vinte anos, ele mais parece um cenário de cidade fantasma com suas: bombas caídas e mato crescido .

Pela estrutura, entretanto, percebe-se que o movimento já deve ter sido bom: cabanas iglu para viajantes, um amplo restaurante servia comida amazonense e o espaço entre as bombas e a rua dá a impressão de que lá já houve um estacionamento.

Hoje, quase tudo está tomado por mato rasteiro, e alguém – talvez o dono protegendo o seu patrimônio? – ateou fogo nos arbustos.

Na década de 80, foram-se os carros, e a reboque foi-se o dinheiro.

Desde então, para quem vive perto da estrada, a promessa de reabertura da BR-319 faz parte da rotina.

Marli Schroeder, uma catarinense que se mudou para o Amazonas há 19 anos, quando a rodovia já tinha sido fechada, admite que a esperança é renovada todos os anos.

“Seria bom, né? A gente poderia chegar em Humaitá em duas horas e meia. Hoje, se saímos cedinho, só chegamos lá às 17h”, afirma.

A família Schroeder é mais conhecida na região como “catarinos”. Todos louros e de olhos azuis, a aparência destoa da população amazônica.

Mas o que mais chama a atenção nos “catarinos” é a fibra de se manter praticamente na fronteira selvagem durante tanto tempo.

“Meu marido sempre quis ser fazendeiro, mas não tinha mais terra para comprar lá no sul, então viemos para cá”, conta Marli Schroeder.

Passados quase vinte anos, a fazenda prosperou. Eles hoje vendem gado para corte em Humaitá, mas vivem praticamente isolados.

A filha mais velha de Marli, Sara, tem 18 anos e neste ano começou a estudar formalmente pela primeira vez na vida.

“As mães sempre ensinaram os filhos a ler e a escrever, mas não tinha escola.”

Graças a um acordo com a Prefeitura de Humaitá, uma professora primária foi enviada para a fazenda dos “catarinos”.

De segunda a sexta-feira, ela mora no local e dá aula para as nove crianças que lá vivem.

“Talvez nós tenhamos errado ao insistir em morar aqui. Eu poderia ter ido para a cidade com as crianças para elas irem à escola. Mas nós queríamos dar liberdade para elas aqui”, reflete Marli Schroeder.

A reabertura da BR-319 poderia ajudar os “catarinos” a correrem atrás do tempo perdido.

Marli Schroeder diz estar preocupada com a possibilidade de desmatamento que o recapeamento da rodovia pode trazer – “a gente tem filho, né”, resume.

Para ela, se as autoridades quiserem, podem evitar as derrubadas.

O maior medo dela são os grileiros que costumam ser atraídos por novas estradas.

“Ouvi dizerem que aqui tinha muita grilagem e até matança por causa de terra. Disso tenho medo.”

Dia 5: “Breve hotel e”

ASFALTO NA FLORESTA

Edith e família moram na Vila Realidade, na beira da BR-319. Ela é dona de um restaurante e está construindo o primeiro hotel do vilarejo.

Da estrada – se é que se pode chamar assim o trecho da BR-319 em frente à Vila Realidade, a 100 quilômetros de Humaitá – pode-se ver a placa de madeira pintada à mão em frente a uma casa de alvenaria em construção que diz: “Breve hotel e”.

No galpão aberto ao lado, uma outra placa pintada à mão complementa a informação e não deixa dúvidas: “Restaurante, serve-se comida”.

O estabelecimento pertence a Edith Alves Pantoja, que mora no Realidade desde fevereiro, com o marido e quatro filhos.

A obra do hotel, que um dia deve chegar a ter dez quartos, está parada por falta de dinheiro. Isso não chega a surpreender.

O movimento nesta altura da BR-319 é mínimo. Dona Edith se vira fazendo pão para outros moradores – “10, 12 por dia” – e comida para os raros visitantes.

“Se a pessoa esperar a gente faz uma comida. Não que eu faça comida e fique esperando, não.”

Tudo pode mudar com a reabertura da BR-319.

Para quem segue rumo a Manaus, o Realidade é o último vilarejo digno de menção antes de um trecho de 400 quilômetros, praticamente desertos, com a exceção de alguns moradores isolados.

Os olhos de dona Edith brilham quando ela fala da possibilidade do recapeamento da rodovia.

“Podia abrir a BR para poder passar gente por aqui. Mas se não abrir, sempre tem um ou outro que vai precisar dormir aqui”, afirma.

A obra do único hotel da Vila Realidade começou em dezembro e não tem data para acabar.

Atualmente, o marido de dona Edith trabalha em Humaitá, a cerca de 2h30m de ônibus, durante a semana para juntar o dinheiro necessário para concluir a obra.

“Quem sabe em três anos”, sonha dona Edith.

Dia 4: “Isso aqui é feio para caramba”

ASFALTO NA FLORESTA

A equipe da BBC foi convidada a acompanhar um grupo do serviço geográfico do Exército que trabalhava na demarcação do Parque Estadual de Tapauá.

Depois de uma caminhada de uma hora sem parar pela Floresta Amazônica encontramos um grupo do serviço geográfico do Exército que trabalhava na demarcação do Parque Estadual de Tapauá.

Com eles, estavam 22 alunos do Instituto Militar de Engenharia (IME) em viagem de instrução pela Amazônia. Faz parte da formação dos futuros geógrafos e cartógrafos militares.

Atentamente, observavam a instalação do sofisticado aparelho de GPS que indicou o local exato para a instalação do marco do parque e depois ainda foram arguidos pelo comandante do serviço, o general Pedro Ronalt Vieira.

Enquanto eu trabalhava intensamente nas três línguas em que tenho mandado material de volta a Londres, o nosso guia, o geógrafo Luiz Cleyton Holanda, observou uma cena curiosa:

Um dos estudantes, fardado, comentou em voz alta com seus colegas que não entendia por que tanto barulho pela preservação da Amazônia.

“Isso aqui é feio para caramba”, disparou.

Cleyton, um apaixonado pela Amazõnia, se controlou para não partir para o ataque.

No fim das contas, quem sofreu fui eu. O aluno do IME também era carioca….

Dia 3: Transamazônica e Apurinãs

 

ASFALTO NA FLORESTA

A aldeia Tucumã, da etnia Apurinã, fica a 2 km da BR-319.

Pode ser o nome, a extensão, a localização, sei lá. A rodovia Transamazônica sempre pareceu ter um ar meio mitológico.

Para começo de conversa, são quase 5 mil quilômetros de estrada, cortando a Amazônia de leste a oeste. O tipo de obra faraônica difícil não se deixar impressionar.

Nesta terça-feira, a expedição da BBC Brasil passou por 35 quilômetros dela. É inevitável quando se passa por Humaitá pela BR-319 rumo a Manaus.

Inevitável também foi perceber que a lendária Transamazônica é, em alguns trechos, nada mais que uma estradinha de barro, dessas que se vê levando a sítios do interior.

A diferença é que vira e mexe aparecem enormes retro-escavadeiras e caminhões do Exército, que trabalham na duplicação e repavimentação das pistas.

Pouco depois de voltar à BR-319, uma placa quase apagada informa: Manaus a 640 quilômetros.

A entrada para a aldeia Tucumã, da etnia Apurinã, fica poucos quilômetros adiante.

E foi em frente a ela que nós nos encontramos com cerca de 20 indígenas.
O cacique da aldeia Tucumã, Luiz Apurinã, não parecia totalmente convencido sobre as vantagens da repaveamento da BR-319.

“Se vai ser positivo? Olha…”, vacilou o líder, enquanto a irmã atrás “soprava”: “vai ser muito positivo para nós.”

Ninguém parece estar muito certo das consequências que a obra pode ter sobre os Apurinã.

Pudera, segundo Luiz Apurinã, grileiros e criadores de gado já são uma ameaça presente na vida da aldeia Tucumã.

“Quanto mais a estrada melhora, mais chegam brancos, né?”, disse Martinho Apurinã, um dos moradores mais antigos da aldeia.

Para eles, o mais urgente é a demarcação das suas terras. Sem isso, eles temem perder espaço rapidamente com a reabertura da estrada

Moradores já reclamam até de madeireiros e extrativistas ilegais, que estariam comprometendo a subsistência da aldeia Tucumã.

O chefe-substituto da Funai em Humaitá, Raimundo Parintintin, disse que o problema deve ser solucionado em breve.

“Está sendo feito um levantamento detalhado sobre a situação nessas terras. Nós entendemos a situação deles e queremos demarcar as terras o mais rápido possível”, afirmou..

Enquanto esperam, os Apurinã da BR-319 tentam chegar a uma opinião sobre as vantagens da possível reabertura da estrada.

Dia 3: Família do Jipe Clube

 

Nosso carro principal é o da esquerda. Os outros são veículos de apoio.

Muita gente deve achar essa nossa expedição um tremendo programa de índio (sem trocadilhos, por favor) – se meter nos confins da Amazônia, n uma estrada esburacada e muitas vezes perigosa, acampando pelo caminho…

O fato é que nós, da equipe da BBC, estamos evidentemente a trabalho – embora, ficar esperando presidente em lobby de hotel cinco estrelas me pareça um fardo bem mais pesado.

Digressiono. Outros três integrantes da equipe de apoio também estão trabalhando, afinal, eu não gostaria de enfrentar a BR-319 enfrentando um carro de aluguel.

Nosso 4×4 vira ‘hotel’ durante a noite.

Todos são integrantes do Jipe Clube de Porto Velho. Outros dois jipeiros vieram “de carona” (no carro deles, é claro). Só pela aventura.

Fica quase tudo em família: dois irmãos, Leonardo e Tiago e pai e filho, Antônio Ferreira da Silva, o Toninho, e Igor.

E assim finalmente cheguei no ponto.

Nunca fui de gostar de carro, mecânica, essas coisas, mas imagino que poucos programas aproximem mais um pai a um filho, ou mesmo dois irmãos, do que passar cinco dias de perrengue na Floresta Amazônica.

 

Dia 2: Parque Nacional do Mapinguari

 

ASFALTO NA FLORESTA

O nascer do sol no cerrado amazônico.

 

Para quem não conhece, os arbustos e árvores baixas podem até dar a impressão de que a área foi desmatada recentemente, mas o chamado cerrado amazônico é tudo menos isso.

São campos considerados minas de ouro para cientistas – viveiros da biodiversidade amazônica.

Foi em uma dessas regiões de cerrado amazônico que uma nova espécie de gralha foi registrada pela primeira vez pelo pesquisador Mario Cohn-Haft, há menos de um ano.

Ao longo da BR-319, há diversos campos como estes, que podem ser vistos em imagens de satélites.

Eles aparecem como manchas amarelas que – para os leigos, é bom repetir – podem parecer focos de desmatamento. A diferença é que esses tais “focos” ao longo da BR-319 ficam em locais bastante inacessíveis.

Só se chega até eles com um mateiro e várias horas abrindo trilhas floresta adentro.

Por isso é que decidimos pegar um atalho: fomos até o recém-criado Parque Nacional do Mapinguari.

 

Lá vimos cotias, araras, muitas andorinhas, papagaios e até rastros de anta, o maior mamífero da América do Sul.

Da “nova” gralha, nada. Mas tudo bem, tivemos uma bela impressão do que os inimigos da reabertura da BR-319 dizem estar sob risco de sobrevivência, caso ela realmente seja inteiramente recuperada.

A partir desta segunda-feira, vamos começar a encontrar as pessoas que vivem às margens da rodovia, muitas vezes em condições de pobreza com enormes dificuldades de acesso a serviços básicos, como saúde e educação.

Não vou ficar surpreso, se descobrir que para essas populações, a importância da incrível biodiversidade amazônica fique em segundo plano, diante da necessidade de, por exemplo, chegar rapidamente a um hospital.

Dia 2: Porto Velho

Sob um calor inclemente, na rodoviária de Porto Velho, uma passageira cercada de malas e caixas, reclama do preço que pagou pela passagem de avião para voltar de Manaus à capital rondoniense.

Mais de cem quilômetros estrada acima, no assentamento Renascer, a professora primária conta que há cinco anos dá aulas no local e, por falta de transporte público, é obrigada a pegar carona na ida e na volta.

As duas histórias tem como ponto comum a BR-319. No trecho urbano da rodovia, onde fica a rodoviária, a autônoma Hilda Oliveira me contou que pagou R$ 300 pela passagem aérea.

Já a passagem do ônibus da Eucatur que liga Porto Velho a Humaitá, no Amazonas, a última parada na rodovia, é bem mais barata: R$15.

De acordo com o gerente da empresa na capital de Rondônia, Maximino Bedin, se estivesse em operação, o trecho até Manaus chegaria a uns R$ 120 e encheria até seis ônibus por dia.

Até Humaitá são quatro serviços por dia, mas para Márcia da Silva, que ganha menos de R$ 700 por mês como professora da rede municipal, o preço é proibitivo.

Ela teria que pagar o valor do bolso diariamente para saltar no Renascer, um povoado com 68 famílias nas margens da BR-319.

Em vez disso, ela se vira como caroneira para percorrer as quase duas horas que separam o local da capital do estado vizinho.

As duas mulheres veem nos planos de reabertura da estrada a expectativa de uma qualidade de vida melhor.

Hilda de Oliveira diz que visitaria a filha em Manaus mais frequentemente. A professora Márcia sonha com a instituição de transporte público.

O que pude perceber, entretanto, é que pelo menos no caso da professora, mais do que solução direta para os problemas do assentamento Renascer, a BR-319 é vista como uma impalpável esperança no futuro.

Na escola municipal de 80 alunos em que Márcia trabalha não há segundo grau.

“As crianças aqui são praticamente condenadas a parar de estudar, por falta de escola depois do ensino médio”, diz.

Eu pergunto o que a BR-319 tem a ver com isso, e ela me diz que pelo menos assim o governo deve voltar a olhar para as pessoas que vivem à beira dela.

Dia 1: Antes da partida

 

 

De Porto Velho a Manaus, a nossa equipe vai trazer diariamente vídeos, fotos, sons e reportagens sobre as condições das comunidades e da natureza exuberante da região.

Faltando pouco mais de um mês para o início da reunião sobre mudanças climáticas das Nações Unidas em Copenhague, na Dinamarca, o equilíbrio entre preservação e desenvolvimento na Amazônia brasileira assume proporções globais.

O desmatamento é responsável por cerca de 20% das emissões dos gases que provocam o efeito estufa no planeta. No Brasil, de acordo com os dados oficiais (de 1994), ele responde por mais de 70% das emissões nacionais.

Se, como criticam os adversários do projeto, o reasfaltamento da BR-319 levar à derrubada da floresta, o Brasil vai ter dificuldades em manter os compromissos de desmatamento já assumidos internacionalmente, como parte do programa nacional de combate às mudanças climáticas.

Os defensores da ideia, no entanto, afirmam que todas as medidas possíveis para resguardar a floresta estão sendo tomadas e que não pavimentar a rodovia é condenar as populações da região ao abandono.

Acompanhe a expedição da BBC pelo mapa interativo na nossa página http://www.bbcbrasil.com e pelo Twitter (bbcamazonia) para viver com os nossos repórteres o dia-a-dia na BR-319 e tirar as suas próprias conclusões sobre a polêmica.

 

 

 

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