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Estudo mostra os beneficiários da destruição na Amazônia

“Os frigoríficos Bertin e JBS Friboi formaram, em 2009, a maior companhia do mundo no segmento de proteína animal. Porém, ao se unirem e construírem uma planta industrial, o grupo adquiriu madeira de empresa que já recebeu matéria-prima de fazenda com área embargada pelo Ibama.” 

Esse é um dos diversos casos de grandes empresas envolvidas com a cadeia produtiva predatória que ilustram a pesquisa Quem Se Beneficia com a Destruição da Amazônia, lançada em 23/3, em São Paulo, pelo projeto Conexões Sustentáveis: São Paulo–Amazônia, iniciativa que busca mobilizar as cadeias de valor dos setores da pecuária, da madeira e da soja por meio de pactos setoriais para a preservação da Floresta Amazônica e de seus povos.

O estudo mostra que grandes empresas que atuam no município de São Paulo continuam presentes na cadeia produtiva de crimes ambientais e sociais cometidos contra a Amazônia.

De acordo com Leonardo Sakamoto, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos autores do estudo, grandes empresas como Casas Bahia e Magazine Luíza estão relacionadas com o desmatamento da Amazônia ao comprar produtos de fornecedores ligados a crimes socioambientais na região. “O desafio é privilegiar o desenvolvimento sustentável sem impedir que classes sociais mais baixas tenham acesso a determinados bens, já que produtos sustentáveis são mais caros do que os ilegais”, explica.

Um dos principais objetivos do estudo é alertar as empresas e os consumidores sobre a importância de adotar modelos de negócios que não financiem a exploração predatória dos recursos naturais ou a exploração desumana de trabalhadores, nem causem danos às populações tradicionais.

Nesse sentido, o estudo busca obter a adesão de novas empresas aos pactos das cadeias de valor dos setores pecuário, produtor de soja e madeireiro. Foi o que ocorreu com duas construtoras paulistanas, a Stuhlberger e a Tecnisa, que estavam entre as empresas mapeadas pela pesquisa. Convidadas a aderir ao Pacto da Madeira, elas se tornaram suas mais novas signatárias.

Legitimação da ilegalidade

Marques Casara, diretor da empresa Papel Social e também autor da pesquisa, destaca a influência de órgãos de governo em ações ilegais. “Hoje há novas formas de fraudar a extração de madeira, que são perpetuadas pelo próprio Estado. Na Secretaria de Meio Ambiente do Pará, por exemplo, há uma quadrilha que frauda o sistema de controle. No Mato Grosso, funcionários do alto escalão foram pegos em um escândalo de esquentamento de madeira”, diz.

De acordo com o relatório da pesquisa, ao destacar algumas cadeias produtivas que impactam o meio ambiente, “a intenção não é procurar culpados (até porque, em última instância, todos nós, consumidores, somos responsáveis), mas unir esforços para resolver o problema e monitorar a solução. Com a transparência que uma sociedade que vive na era de informação exige”.

Atualmente, a atividade de extração de madeira ilegal no Pará movimenta ao ano cerca de R$ 2 bilhões. De acordo com Valmir Ortega, diretor do Programa Cerrado-Pantanal da Conservação Internacional-Brasil, uma das questões mais preocupantes é o fato de que a atividade ilegal é legitimada pelos habitantes do local onde ela se encontra: “Os atores que investem em ilegalidades como grilagem, extração de madeira ilegal, supressão de floresta e associação com madeireiras ilegais precisam de um capital inicial de R$ 1 milhão. Após dois anos, a atividade obterá um retorno ao investidor de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões. Duvido que haja outra atividade com tal taxa de retorno”.

O mais preocupante, para Ortega, é que boa parte da sociedade acha que esse processo é legítimo: “Há um entendimento de que nessas regiões a lei não pode ser cumprida. É por isso que combater essas práticas é tão difícil”.

Políticas de compras positivas

Segundo Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, as políticas de compras que excluem negociações com aqueles que estão em listas de atividades predatórias, como a do desmatamento, não são suficientes: “É preciso adotar políticas positivas, nas quais se decide e se divulga o que se quer comprar, em vez de excluir fornecedores com base em listas amostrais de exclusão”.

Para Smeraldi, esse é o momento de abandonar a postura simplista de “limpar a barra”. “É preciso estruturar a cadeia, e não excluí-la cada vez mais”, afirma.

Por Thais Iervolino (Amigos da Terra – Amazônia Brasileira) / Edição de Benjamin S. Gonçalves (Instituto Ethos)

Legenda da foto: Sérgio Mauro Santos Filho, secretário executivo do Instituto Socioambiental (ISA), fala durante o lançamento do estudo. Sentados, Leda Aschermann, secretária adjunta de Verde e Meio Ambiente do município de São Paulo, Valmir Ortega, diretor da Conservação Internacional-Brasil, e Roberto Smeraldi, diretor da Amigos da Terra.
Crédito: Tatiana Cardeal/Papel Social

 

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