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Submarinos russos vão explorar o Lago Léman

Projeto de exploração será coordenado pela Politécnica de Lausanne

Projeto de exploração será coordenado pela Politécnica de Lausanne (swiss-image.ch)

Por Thomas Stephens, swissinfo.ch


 

Dois submarinos russos vão explorar o fundo da maior superfície de água doce da Suíça. A operação vai ocorrer no verão europeu permitirá melhorar o conhecimento geológico e físico do Lago Léman, também conhecido como Lago de Genebra.

Coordenado pela Escola Politécnica Federal de Lausanne, o projeto reunirá pesquisadores do mundo inteiro para melhor compreender e proteger o lago.

 

“Nosso lago é especialm não somente por sua beleza”, afirma Andrew Barry, professor de tecnologia ecológica na Escola Politécnica de Lausanne (EPFL), membro da operação, questionado por swissinfo.ch.

A maioria dos lagos é de pequeno porte e a força de Coriolis (efeito da rotação terrestre, entre outros fenômenos, sobre as correntes marítimas), não tem qualquer impacto sobre eles. Os grandes lagos norte-americanos são como pequenos mares, mas o nosso tem um tamanho mágico, com interações entre certas forças, explica Andrew Barry.

Quase 1,5 milhão de pessoas vivem na bacia lemânica, onde o lago abastece em água potável metade dessa população. Apesar de sua importância, ainda há muito que aprender e descobrir acerca da complexidade do ecossistema desse lago franco-suíço.

“O que pode ocorrer aqui é que as correntes movem as margens, provocando uma interação entre os sedimentos do fundo lacustre e os sedimentos de superfície, que podem posteriormente chegar às correntes”, explica Andrew Barry. “E se os sedimentos contém substâncias consideradas perigosas, queremos determinar sua progressão”.

Barry vai fazer parte da tripulação ? “Para ser sincero, acho que não. Não gosto de ficar fechado em um espaço confinado”, confessa o pesquisador.

“Não é o Caribe”

Os dois submarinos Mir têm 8 metros de comprimento, capacidade para três pessoas e podem descer até 6 mil metros de profundidade. A profundidade máxima do lago é de 310 metros.

Mir – que como para a estação espacial significa em russo “mundo” e “paz” – vai permitir aos pesquisadores reunir dados e distribuir captores em grandes áreas lacustres.

Os submarinos possibilitarão compreender o impacto de micropoluentes e como eles se acumulam nas profundezas aquáticas. Em cerca de trinta imersões, de quatro e seis horas cada uma, serão coletados materiais para análises de laboratório.

“Claro que não é o Caribe e não poderemos admirar belas cenas submarinas, mas cada lago é diferente”, afirma Ulrich Lemmin, professor na EPFL, especialista em reologia, ou seja, o estudo da deformação e escoamento de matéria.

“A mistura de cascalho e de lodo é muito diferente de uma lugar para outro e são essas diferenças que condicionam também as correntes aquáticas, os depósitos de materiais e assim por diante. E não é porque já mergulhei no lago Baikal, por exemplo, que não devo explorar o Léman. De fato, eu conheço os dois lagos e não posso dizer que eles são muito diferentes.”

Para Ulrich Lemmin, que fará parte das tripulações, a colaboração entre pesquisadores de diferentes disciplinas científicas é a parte mais interessante do projeto.

“O eixo central da operação fará com que faremos nossas pesquisas simultaneamente, o que nos permitirá interpretar posteriormente os resultados em uma área e analisá-los através de uma outra disciplina científica”, explica.

Agradecer a comunidade

As operações de imersão dos submarinos, financiadas pela empresa Ferring Pharmaceuticals e pelo Consulado da Rússia em Lausanne, ocorrerão entre julho e agosto próximo.

Michel Pettigrew, presidente do grupo farmacêutico fundado na Suécia, explica seu interesse: “Há seis anos, transferimos a sede da empresa para Saint-Prex, às margens do lago. Fomos muito bem recebidos. Os suíços foram muito amáveis conosco e nossa maneira de manifestar nossa gratidão é de permitir à população local de compreender melhor seu lago”, confidencia.

“Se, por sorte, alguma descoberta for feita, é evidente que  examinaríamos do que se trata, mas esse não é o objetivo até agora”, precisa o empresário.

Patrick Aebischer, presidente da EPFL, que confessa também sofrer de claustrofobia, alegra-se com essa colaboração internacional. Lembra ainda os esforços da EPFL nos últimos dez anos para reforçar as relações com a Rússia.

“Consideramos a Rússia um país importante. É um dos BRIC (com Brasil, Índia e China), com os quais queremos desenvolver mais interações”, sublinha.

Questões em aberto

O projeto envolverá ainda geólogos, biólogos, físicos, químicos e limnologistas provenientes da Suíça, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos.

Todos os pesquisadores tentarão resolver numerosos enigmas como os componentes dos fundos lacustres ; quais agentes poluentes estão presentes e como evoluem nas correntes; como as populações bacterianas estão distribuídas nas profundezas e através de que dinâmica os sedimentos são transportados pelos afluentes.

A foz do rio Ródano, na extremidade do lago Léman, também desperta um grande interesse. Os sedimentos carregados pelo rio formaram “canyons” de mais de 30 metros de profundidade. As imersões devem permitir uma compreensão melhor esse ambiente instável.

Os pesquisadores querem ainda explorar a baía de Vidy, perto de Lausanne, cuja margem é muito populosa, e analisar o impacto dos micropoluentes nessa região.

“Por último, devemos conseguir prever certos acontecimentos no lago. Para isso, dispomos de instrumentos sofisticados reproduzindo sua hidrodinâmica. Mas, para que funcionem bem, precisamos de dados confiáveis”, explica  Andrew Barry.

E se, por ventura, aparecer para os pesquisadores uma criatura de pescoço comprido, o responsáveis do turismo entrariam rapidamente em contato com a região Loch Ness, para pedir conselhos!

 

Thomas Stephens, swissinfo.ch
Adaptação:Claudinê Gonçalves

 

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