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Perseguidos pela radiação

Por Suvendrini Kakuchi, da IPS

Tóquio, Japão, 24/3/2011 – Um futuro incerto espera os milhares de moradores vizinhos das centrais nucleares japonesas da localidade de Fukushima afetadas pelo terremoto e posterior tsunami, enquanto se preparam para serem retirados e assim escapar da perigosa contaminação por radioatividade. O medo e a raiva causada pela crescente sensação de vulnerabilidade endureceram a oposição da população contra a energia nuclear. Cada vez mais pessoas reclamam uma revisão da tão comentada segurança das políticas e das tecnologias por trás da escolha de fontes alternativas.

São 54 reatores que cobrem 30% do consumo de energia do país. O restante é gerado por carvão, petróleo e outras fontes.

 

O Japão carece de recursos e optou por apostar seu futuro econômico na energia nuclear. Por emitir quase nada de dióxido de carbono, esta é uma opção atraente diante da mudança climática.

O prefeito de Futabacho, povoado próximo da central de Fukushima Daichi, disse que é hora de a população deixar de depender da usina nuclear. “O desastre mostrou que temos de rever nossa política a respeito da central atômica”, afirmou Katsutaka Idogawa. “Temos que desenvolver ideias para termos outra indústria que estabilize nossa economia”, afirmou ao jornal Asahi.

Entretanto, os sete mil moradores de Futabacho estão relacionados com Fukushima Daichi, são empregados ou trabalham em outras atividades vinculadas a ela. O povoado fica a dez quilômetros da zona de exclusão de 20 quilômetros fixada pelas autoridades. O governo contou 25 mil pessoas abandonando Fukushima, às quais se somaram as 350 mil evacuadas das zonas mais afetadas.

Ayako Ooga e seu marido, que viviam a seis quilômetros de uma das usinas de Fukushima, foram prejudicados pelo desastre. O casal abandonou o lugar no dia 11, na noite do terremoto, por medo da contaminação radioativa. “Nossa casa foi afetada, mas sempre nos preocupou a segurança da central atômica. Após o acidente, o futuro será funesto”, disse Ayako à IPS.

A mulher, de 38 anos, concorda com Katsutaka porque reflete os temores e receios da comunidade que está sendo evacuada. “Senti certo alívio quando Katsutaka disse que encabeçaria a evacuação, pois significou muito para nós”, afirmou. Ayako, que pertence a uma comunidade agrícola e acabava de construir sua casa, se pergunta se algum dia poderá visitá-la.

O prefeito guiará o primeiro grupo de 1.500 pessoas que serão assentadas em Saitama, ao Norte de Tóquio. Sua decisão preparará o caminho para que o restante da comunidade os siga e recomece sua vida como antes, até poderem voltar para suas casas. O processo de reassentamento sempre é doloroso, segundo vários especialistas, mas é pior quando são milhares de pessoas que devem fugir para escapar da contaminação radioativa e estão em perigo de não poderem voltar para suas casas por muito tempo.

“É uma tragédia”, disse o professor Toshikata Katada, da Universidade de Nagoya. O especialista em desastres dedicou décadas a percorrer a região propensa a terremotos para criar mapas de áreas de perigo e medidas de emergência. Toshikata explicou que os especialistas não estavam preparados para o ocorrido. “Nossa preparação mostrou como o conhecimento se depara com os caprichos da natureza. Desta vez ela ganhou”, disse.

Os níveis de radiação são 1.600 vezes superiores ao normal a 20 quilômetros da central de Fukushima, informou, no dia 22, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Especialistas dessa agência da Organização das Nações Unidas chegaram no dia 18 a Tóquio após a controvérsia causada por diferentes leituras nos níveis de radiação por parte do governo e de suas contrapartes estrangeiras, o que levou a pensar que as autoridades japonesas haviam semeado o pânico em algumas cidades cujos supermercados foram esvaziados pela população em uma noite.

Outro motivo de preocupação surgiu no dia 22, quando o governo anunciou os altos níveis de radioatividade detectados no mar diante da central de Fukushima, o que fez temer pela contaminação dos produtos marinhos da região. A empresa Tokyo Electric Power Company informara, no dia 21, ter detectado material radioativo em amostras de água do mar com concentrações 126,7 vezes maior do que a permitida.

Os níveis de Césio 137, material radioativo que pode permanecer inativo por mais de 30 anos, eram 16,5 vezes acima do limite. Além disso, foram detectadas amostras de Cobalto 58 em amostras de água marítima retiradas de perto da usina. O espinafre e o leite em Fukushima mostram altos níveis de radioatividade e não podem ser consumidos. A situação crítica de Fukushima causa ansiedade onde existem outras centrais atômicas.

A Chubu Electrical Power Company, que opera a usina de Hamaoka na localidade de Omaezaki, anunciou esta semana que conseguiria um gerador de energia movido a óleo combustível caso careça de energia por causa do tsunami. Omaezaki fica 150 quilômetros ao Sul de Tóquio. A prefeitura de Shizuoka, onde fica essa localidade, é identificada como uma área propensa a terremotos.

A população está preocupada pela situação de Fukushima que continua fora de controle, uma semana após o terremoto. O ativista Minoru Ito contou que as pessoas continuam perguntando sobre o que fazer agora. “A tragédia de Fukushima dá arrepios”, afirmou. Envolverde/IPS

 

(IPS/Envolverde)

 

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