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Por uma nova economia energética

por Ricardo Abramovay*

1161 300x193 Por uma nova economia energéticaÉ necessário desfazer a ilusão, difundida amplamente por Al Gore, de que os Estados Unidos podem tornar-se independentes dos combustíveis fósseis nos próximos dez anos. Mesmo que o esforço nessa direção seja equivalente ao mobilizado durante a Segunda Guerra Mundial, levará ao menos três décadas para que fontes alternativas substituam o petróleo na matriz energética norte-americana. Os custos adicionais da construção de novas usinas nucleares, após o acidente de Fukushima, só tendem a dilatar esse prazo.

Ao mesmo tempo, ninguém ignora que é exatamente nos próximos 30 anos que o mundo vai enfrentar dois desafios civilizacionais inéditos: o primeiro é o pico do petróleo, ou seja, o momento em que sua exploração entrará em declínio terminal. O segundo, mais grave, refere-se ao fato de que as emissões de gases de efeito estufa devem iniciar trajetória seriamente declinante ainda na atual década, sob pena de se chegar ao final do século com alterações climáticas capazes de provocar catástrofes das quais o furacão Katrina oferece apenas uma pálida ideia.

A ponte que vai permitir a travessia para o fim da era fóssil não depende de um graal energético supostamente contido no hidrogênio, no prometido sequestro de carbono, nos biocombustíveis, nas turbinas eólicas ou na descoberta de telúrio que viabilize o uso em larga escala do solar fotovoltaico. Estas contribuições são relevantes, mas não garantem o essencial: a transição para uma economia de baixo carbono. O mais importante é alterar radicalmente a maneira como se faz a gestão da energia no mundo contemporâneo, particularmente nos Estados Unidos. E a mudança tem de ocorrer enquanto petróleo, carvão e gás ainda forem os combustíveis mais importantes da economia mundial.

Nos últimos 40 anos, Robert Ayres tem trabalhado na formulação de uma teoria econômica em cujo centro esteja o reconhecimento de que a vida social não depende apenas de capital e trabalho, mas também, e cada vez mais, de energia e matéria. Por incrível que pareça, essa dependência não integra o pensamento econômico que, desde o Século 18, se desenvolve separando-se da natureza e só considerando sua existência em momentos de escassez, tratados sempre como episódios passageiros, antecâmaras de nova bonança.

Neste livro, escrito com Edward Ayres (que durante muitos anos foi diretor do Worldwatch Institute), Robert Ayres propõe não uma fórmula mágica e sim um conjunto de políticas que sirvam como ponte para atravessar os próximos anos. Travessia difícil (pois abala convicções e interesses arraigados), mas indispensável e promissora para a sociedade e para o mundo dos negócios.

É bem sabido que o crescimento da economia mundial apoia-se em ganhos crescentes de eficiência energética: cada unidade de PIB é obtida com uso cada vez menor de energia e materiais. A transição dos próximos 30 anos exige, porém, que esses ganhos de eficiência sejam acelerados. É tecnicamente possível, por exemplo, dobrar a quantidade de serviços úteis que se extraem de uma unidade de energia nos Estados Unidos num prazo bastante curto, garantem os autores.

A cogeração de energia, por exemplo, levada adiante por cerca de mil indústrias americanas, poderia ser imediatamente multiplicada por dez. Isso significaria garantir cerca de 10% da capacidade de geração de energia elétrica norte-americana sem gastar um barril de petróleo ou um grama de carvão, e a custos bem menores que os envolvidos na construção de usinas termelétricas. Mais importante ainda é constatar a impressionante ineficiência das grandes centrais de energia elétrica movidas a carvão, que, nos últimos 40 anos, mantêm um padrão tecnológico quase inalterado. No cálculo dos autores, de cada sete unidades de trabalho potencial (ou seja, do serviço realmente prestado pela oferta de energia) com base em usinas elétricas a carvão, apenas uma unidade se transforma em algo útil para a sociedade. É impressionante o contraste entre o avanço representado pelo iPad e a base energética sobre a qual ele repousa.

Outro campo em que a eficiência pode estar mais no uso do que na mudança da fonte de energia é a produção combinada de calor e eletricidade (CHP, na sigla em inglês), que pressupõe o estímulo a formas descentralizadas de energia – que se chocam com os interesses das grandes usinas termelétricas. Enquanto nos Estados Unidos apenas 8% da energia elétrica vem de CHP, a Dinamarca já chegou a 51%, a Finlândia a 37% e a China a 18%.

Mas os padrões de consumo domiciliar também terão que ser alterados de forma significativa: as residências alemãs consomem 210 kWh por metro quadrado, em média. Nas novas construções, esse patamar caiu para 95 kWh e nas construções voltadas à economia de energia e materiais chega-se a 20 kWh. Este tipo de construção já avança na Europa desde os anos 1990, mas nos Estados Unidos a primeira ainda não tinha ficado pronta em 2009.

Essa mudança vai alterar igualmente o conceito de mobilidade. É difícil imaginar algo energeticamente mais ineficiente do que duas toneladas de aço, vidro e borracha para transportar um ser humano por vias congestionadas. E é bom lembrar que os motores a álcool ou elétricos pouco alteram essa ineficiência, que só será enfrentada quando a prestação do serviço de mobilidade em condições adequadas a diferentes necessidades for mais importante do que possuir um automóvel.

A ideia, tão corriqueira, de que, se esses caminhos de transição fossem tecnicamente viáveis e, de fato, positivos, o mercado já os teria levado adiante, é falsa. As crenças e os interesses consolidados em torno dos atuais padrões de produção e de consumo freiam seu avanço. Na verdade, a construção do futuro energeticamente limpo já começou. Ela tem que ser dramaticamente acelerada e, para isso, a condição é que a eficiência no uso de energia e materiais passe a ocupar, de fato, o centro da inovação tecnológica contemporânea. E é claro que isso não se refere apenas aos Estados Unidos.

Crossing the Energy Divide
Robert U. Ayres e Edward H. Ayres. Wharton. 256 págs., R$ 22,32

*Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de Economia da FEA, do Instituto de Relações Internacionais da USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental, pesquisador do CNPq e da Fapesp.www.abramovay.pro.br. Este texto também foi publicado no Valor Econômico.

**Publicado originalmente no site Outras Palavras.

(Outras Palavras)

 

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