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Essências da infância 


Além da boa qualidade de vida, dos seus museus e de sua gente, do verde dos parques e praças e da relativa tranquilidade, quem chega em Porto Alegre sente uma fragrância diferente no ar, uma mistura de odores, de flores, de grama molhada.

São perfumes que persistem e espalham-se com mais intensidade nessa época e nos remetem muitas vezes ao passado. Para mim, é o aroma da infância de todos que aqui residem, que felizmente nos acompanha e sinaliza que estamos preservando a natureza, cuidando da cidade, semeando ainda mais verde. São lembranças aromáticas, de flores, permeadas aqui e ali por cheiros de cozinhas que preparam sopas, bolos, doces e outros segredos de velhos cadernos de receitas.

Senti esses aromas indo para casa, no final de um desses dias – um pouco ensolarado, um pouco nublado – e com a luz inesquecível de outono. Moro num bairro com muito verde e, junto com sons dos pássaros, percebi o cheiro da minha infância no ar quando passava diante de uma casa arborizada. Portava um antigo relógio de bolso, ganho do meu pai. O relógio pertencera a um grande amigo dele. Aquele velho marcador de tempo foi a ligação com o passado. É incrível a volta que se dá, até onde nossa memória vai e a alegria, saudades e histórias que esse voo proporciona. Uma verdadeira viagem.

É a possibilidade incrível de recompor cenas, com amigos, familiares e de situações e momentos alegres. Lembrei também de uma entrevista do filósofo Zygmunt Bauman. Ele disse ter aprendido com Jorge Luis Borges sobre os limites de certas ilusões humanas. Sobre a futilidade de sonhos de precisão total, de exatidão absoluta, de conhecimento completo, de informação exaustiva sobre tudo; sobre as ambições humanas que, no final, se revelam ilusórias e nos mostram impotentes.

Fiquei feliz relembrando velhos amigos, sentindo o aroma de reluzentes pães esfriando no parapeito da janela lá de casa. Porto Alegre ainda conserva a simplicidade e as essências da nossa infância.

Autor: Inácio Knapp