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Ativistas protestam em Berlim contra financiamento

alemão a Angra 3

Maurício Moraes

Da BBC Brasil em São Paulo

Ativistas protestam em frente à sede do governo alemão, em Berlin. German protestors demand Merkel cabinet to stop funding Angra 3 nuclear plant, in Brazil. Berlin.Christian Russau/Divulgação

Governo alemão anunciou fechamento de todas as usinas nucleares até 2022, após acidente no Japão

Ativistas antinucleares convocaram um protesto nesta quarta-feira em Berlim contra os planos do governo alemão de subsidiar indiretamente a construção da usina nuclear de Angra 3, no litoral do Rio de Janeiro.

Os manifestantes, que realizarão o protesto em frente à sede do governo, dizem ter reunido um abaixo-assinado com 125 mil assinaturas pedindo o fim do financiamento.

Há pouco menos de quatro meses do acidente na central nuclear de Fukushima, no Japão, que levou a Alemanha a anunciar o fechamento de todas as suas usinas até 2022, os ativistas querem que o governo Merkel desista de subsidiar a empresa francesa Areva, que irá fornecer equipamentos para Angra 3.

Em entrevista à BBC Brasil, Barbara Happe, porta-voz da ONG Urgewald, disse que “não faz sentido o governo anunciar que fechará todas as usinas alemãs e continuar investindo na construção de plantas em outros países”.

O financiamento indireto se dá por meio da agência alemã de fomento a exportações Hermes.

Segundo a ONG, o governo alemão planeja investir 1,3 bilhão de euros (cerca de R$ 2,9 bilhões) na companhia francesa Areva, que irá produzir os equipamentos de Angra 3 em uma linha de produção alemã. Este tipo de subsídio funciona como uma espécie de seguro para proteger as empresas alemãs caso um empreendimento em outro país fracasse.

A Areva foi contatada pela BBC Brasil para comentar se está considerando alguma mudança nos seus planos em relação a Angra 3, mas não respondeu à reportagem.

Usina

“Não faz sentido o governo anunciar que fechará todas as usinas alemãs e continuar investindo na construção de plantas em outros países”

Barbara Happe, da ONG Urgewald

Segundo Happe, o projeto de subsídios à exportação, que esteve suspenso em 2001 e 2009, foi aprovado no último ano pelo Parlamento. Vários países são beneficiários, mas ao Brasil foi destinado o maior montante – 1,3 bilhão de euros, contra um total de 35 milhões de euros (cerca de R$ 55 milhões) para os outros 11 projetos, de acordo com a ONG.

O projeto brasileiro também é o único que contempla a construção de uma nova usina.

Em 2010, a Alemanha reafirmou seu compromisso com Angra 3, mas nenhum contrato de financiamento nem de fornecimento de materiais por parte do governo chegou a ser assinado.

O projeto nuclear brasileiro é fruto de um acordo de cooperação assinado em 1975 com a antiga Alemanha Ocidental.

Deficiências

Usina de Angra 2, no Rio de Janeiro. AFPEletronuclear nega que complexo de Angra esteja obsoleto, mas diz que segurança pode aumentar

Em abril deste ano, diversas organizações, entre elas a Urgewald, enviaram uma carta à chanceler Merkel, pedindo que o governo não levasse à frente os planos de financiamento da Areva.

Os ativistas argumentam que a situação da usina Angra 2, que funciona há dez anos sem uma licença ambiental permanente e que também foi resultado de uma parceria com a Alemanha, comprova que o Brasil é um país com “baixos padrões de segurança e sem uma fiscalização nuclear independente”.

A ONG diz ainda que o projeto brasileiro emprega tecnologia obsoleta, menciona a falta de um plano de evacuação eficiente em caso de eventual emergência e diz que falta um sistema independente de fiscalização.

Em nota à BBC Brasil, a Eletronuclear disse as usinas de Angra “foram projetadas e construídas dentro dos mais rigorosos critérios de segurança adotados internacionalmente”.

A empresa estatal disse ainda que os equipamentos já comprados “não estão obsoletos” e se “encontram em ótimas condições para uma operação confiável e segura da planta”.

Segundo a Eletronuclear, as usinas são vistoriadas periodicamente por organismos como a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). A empresa cita que nunca houve um acidente no complexo, mas ressalta que “num ambiente de tolerância zero, sempre é possível melhorar a segurança”.