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O QUE LER

Sérgio Buarque de Holanda: Escritos Coligidos

LivroSérgio Buarque de Holanda: Escritos Coligidos
Autor:Sérgio Buarque de Holanda
ArtigoUm historiador sem medo do sigilo eterno
Por: Luís Antônio Giron 

Publicado no jornal Valor Econômico

Sérgio Buarque de Holanda foi um intelectual público, desses que não existem mais. A carreira acadêmica fazia parte de uma atividade de ação mais ampla. Já era um dos mais respeitados pensadores do Brasil quando se matriculou, aos 54 anos, no curso de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Dois anos depois, em 1958, defenderia sua dissertação sobre elementos formadores da sociedade portuguesa na época dos descobrimentos.

A retomada dos estudos seria quase inimaginável no mundo acadêmico de hoje, no qual o título precede a competência e o desempenho. Sérgio Buarque, como quase todos os seus colegas de geração, formou-se nas ruas e nas redações de jornal e revista das grandes cidades. Por isso, boa parte de sua obra circunstancial, jornalística e de intervenção se encontrava inédita em livro. Os dois volumes dos Escritos Coligidos, organizados por Marcos Costa, revelam os bastidores das inquietações, reflexões e pesquisas do intelectual. Esse conjunto de textos de vários gêneros o levaria a elaborar obras canônicas como Raízes do Brasil (1936) e Visão do Paraíso (1958).

Quem estuda tais ensaios sistemáticos pode não imaginar que seu autor levou anos para amadurecer a reflexão – e que, antes de publicar em volume, esboçou suas linhas mestras em textos para revistas e jornais. São ensaios que mostram um estilo rápido e incisivo, sem meias palavras nem excessos. Resultado de uma atividade que perdurou ininterruptamente por 59 anos.

Nascido em São Paulo em 1902 e morto na mesma cidade e 1982, Sérgio Buarque começou na crítica literária no fim dos anos 1920, trabalhou como jornalista e só se tornou historiador porque se apaixonou pelo Brasil, por buscar compreender o passado da nação e suas quase incalculáveis assimetrias. Talvez por causa da educação informal, ele tenha forjado um método peculiar de analisar os fatos históricos, examinando-os por ângulos que contrariavam as tendências historiográficas de sua época, marcada pela ascensão do fascismo e do comunismo.

De um lado, havia os historiadores tradicionalistas, adeptos da cronologia e do culto ao herói. De outro, a escola marxista, que explicava os fenômenos históricos e culturais pelos fundamentos econômicos. Sérgio preferia contemplar o passado a partir do detalhe. Arrancava de um dado de aparência insignificante senhas inéditas para a compreensão de determinadas conjunturas. Trata-se de um tipo de abordagem nada dogmático, mais afeito a certas vertentes da historiografia hoje em voga. É o caso da escola dos Annales de Paris, que ele viria a conhecer bem mais tarde, no fim dos anos 40, quando morou na Europa – que resultaram no artigo Apologia da História, publicado na Folha da Manhã em 1950. Daí o estilo livre e antidogmático de seus textos ainda despertar interesse.

Seu trabalho pode ser descrito como o do literato tropical que põe a mão na massa das fontes primárias com um olhar enviesado, sem temor de desvendar segredos que pudessem manchar reputações de supostos vultos pátrios. Um exemplo é o texto Viva o Imperador, publicado na revista A Cigarra em junho de 1920. Ali, defendia corajosamente a revogação do decreto que bania a família real do Brasil. Em A Bandeira Nacional, na Cigarra de agosto de 1920, o jovem de 18 anos atacava os homens representativos do país, comparando-os a fantoches.

Quase todos os artigos das coletâneas contêm surpresas. Em Corpo e alma do Brasil: ensaio de psicologia social (O Espelho, março de 1935), a ideia da teoria do homem cordial – que consagraria em Raízes do Brasil – já aparece em toda a sua virulência: tomada emprestada do amigo Ribeiro Couto, a noção demonstra ser a cordialidade do brasileiro uma tendência coletiva irracional. Sob a capa da intimidade, ela oculta um desejo de manutenção do estatismo.

Interessado em lançar luz sobre fatos ignorados, ou tidos por inócuos, Sérgio Buarque de Holanda construiu a imagem de um Brasil de muitas máscaras, precário em suas instituições e em perpétuo esboço – muito parecida com a do país de hoje.

Autor: Sérgio Buarque de Holanda

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Infâmia

LivroInfâmia
Autor:Ana Maria Machado
ArtigoRealidade marcada por mentira
Por:Ubiratan Brasil 

Publicado no jornal O Estado de S.Paulo

Diante das injustiças e impunidades noticiadas diariamente no Brasil, a escritora Ana Maria Machado reage com sua melhor arma: uma escrita apurada, desafiadora, denunciadora. É o caso do inédito romance Infâmia, que marca sua estreia na editora Alfaguara depois de vinte anos na Nova Fronteira. Ou ainda da seleção de artigos de Silenciosa Algazarra, editada pela Companhia das Letras. Dois livros lançados recentemente e que comprovam sua versatilidade.

Em Infâmia, a vida de um embaixador aposentado sai da rotina quando aparece um envelope com documentos sobre sua filha, morta em circunstâncias misteriosas. Em uma história paralela, um funcionário de repartição pública é injustamente acusado de corrupção. Tramas que permitem a Ana Maria apontar a tênue fronteira que separa verdades de mentiras. Já em Silenciosa Algazarra, título que remete aos livros mantidos fechados nas prateleiras, a escritora discute os problemas da leitura na educação. Sobre as duas obras, ela conversou com o jornal O Estado de S.Paulo.

Com tantos escândalos em nossa sociedade de hoje, a infâmia perdeu sua força?

Pelo contrário, acho que nunca esteve tão forte. Porque os escândalos reais contribuem para uma sensação de que tudo é possível, ninguém se espanta com mais nada. Às vezes até parece que as pessoas querem acreditar que ninguém presta e não sobrou um sujeito de bem na face da terra.

E a impunidade no caso dos escândalos reais contribui para essa sensação de que tudo vai mal, de modo irrecuperável, e não adianta fazer nada a não ser se indignar contra tudo e contra todos. Mas isso traz o risco de nos tornar cúmplices da injustiça e da indignidade, tratando culpados e inocentes da mesma forma, fazendo o jogo dos bandidos. E, no plano político, contribuindo para desmoralizar a democracia.

A velocidade de propagação de informação (habitualmente não checada) seria uma das causas das denúncias fáceis e mentirosas? Ou o problema é moral?

Não acho que a internet e sua velocidade na difusão da calúnia sejam uma causa desse crime, mas são uma ferramenta para multiplicá-lo. Sem dúvida, o problema tem mais causas éticas e morais, de falta de caráter. Desonestidade mesmo, de quem pretende se beneficiar com algo ou se vingar de alguém que está atrapalhando seus interesses. E em sua propagação o bandido usa todas as armas a seu alcance para se beneficiar. A internet pode ser uma delas, com sua pressa favorável à leviandade, suprimindo a apuração cuidadosa, o cuidado em checar os fatos e dar aquela conferida conscienciosa… A ignorância é outra ferramenta que ajuda a propagar a calúnia, porque se associa a uma saturação compreensível diante dos escândalos reais e impede que se analise criticamente a versão que está sendo impingida como verdadeira. E é impressionante como pessoas aparentemente sensatas são capazes de repetir absurdos que não se sustentam sem nem parar para pensar. Puramente porque reagem quase como um reflexo de indignação, despejando acusações pesadas meramente diante de insinuações. Diariamente as páginas de cartas de leitores dos jornais trazem algum exemplo desse fenômeno.

O que lhe parece o poder da ficção em interferir na realidade e até de criar novas realidades?

O poder da ficção, da imaginação, está exatamente nisso e, pelos séculos afora, em sua forma literária, vem criando as narrativas que ajudaram a construir artes como a literatura, o teatro, o cinema. Realidades artísticas. E, além disso, tem tanta força que cria realidades alternativas, que permitem discutir criticamente a realidade concreta circundante. É muito poder, sim, mas é positivo – tanto quanto o resultado é uma obra de arte como quando o processo se manifesta nos sonhos ou em mecanismos que ajudem o indivíduo a examinar outras possibilidades, novos caminhos. Muitas hipóteses filosóficas ou experiências científicas também nascem do que se inventa, da ficção. O que tem acontecido ultimamente, e é muito pernicioso, é que essa ficção algumas vezes está se misturando ao jornalismo (e com isso, alimentando a História que se fará no futuro). Isso é que me parece muito grave: a manipulação das consciências a fim de enganar o cidadão. Porque traz versões como se fossem fatos. Não se apresenta como algo inventado, fictício, hipotético ou imaginado, mas como se fosse absolutamente verdadeiro. Aí é que está o jogo perverso e desonesto. E tem consequências funestas na realidade: causa dor, faz sofrer, leva inocentes ao desespero. Como se sente um adolescente ao ver seu pai execrado publicamente, sem poder se defender, acusado de algo que não fez e não tem como provar? Quem repete leviandades de forma irresponsável não pensa nisso? E quem as publica, dias a fio, sem qualquer prova? É um bullying elevado à enésima potência… Soube de casos de alguns que não se recuperaram jamais, uma que se recusou a voltar à escola e passava os dias chorando, um que teve de ser internado, uma menina que se suicidou…

Amargura e tédio são os grandes males contemporâneos?

Ih, acho que sou uma sortuda… Não vivo imersa em amargura nem tédio. Mesmo ao tratar de um tema tão repugnante, creio que minha maneira de me aproximar dele é um tanto positiva, a partir de certas premissas que me parecem fundamentais naquilo que nos faz humanos: a solidariedade com as vítimas acusadas injustamente, a compaixão pela dor dos outros, a procura da verdade, a sede de justiça. Quero estar do lado dos caluniados – no plano público ou na intimidade. O meu livro aborda esses diferentes lados. Tanto se ocupa das denúncias levianas e sem fundamentos veiculadas pelos jornais como fala da mulher de um embaixador que fica sem defesa no exterior quando ele a acusa de louca para interditá-la, sem que ela possa se defender. Há uma disparidade de forças, pois ele é, ao mesmo tempo, juiz, promotor e carrasco. Tem todo o poder concentrado em si. Outro aspecto do romance é a frequência de dossiês espúrios na história política do Brasil: as cartas falsas atribuídas a Artur Bernardes, o plano Cohen, a Carta Brandi, os aloprados, o dossiê que virou banco de dados, e tantos outros. Não é caso de tédio, mas sim de preocupação. E de tentativa de análise. Por que esse tipo de expediente é tão recorrente em nossa história?

Autor: Ana Maria Machado

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The Merry Adventures of Robin Hood by Howard Pyle

Read: 24 November, 2010

When we found out we were having a son, I started reviewing my planned reading lists for gender-interest. That’s when I realized that my knowledge of “boy books” is woefully inadequate. I have oodles of “strong willed girl finds her place in society as she transitions into womanhood” books – more than enough to fill any childhood. I certainly want my son to be exposed to these kinds of books, but I realized that I was going to have to expand my repertoire to include at least some books that aren’t about girls getting their first periods if I was going to make a life-long reader out of this kid.

I decided to start with the classics of boy’s literature, and that’s how I ended up readingRobin Hood.

It was fantastic! Even though there was a serious lack of menstruation, there was more than enough exciting adventure to compensate.

The book is told as a series of short stories that build on each other only very loosely. Each one is an adventure involving Robin Hood and his companions; many of them tell how a particular individual came to join Robin Hood’s gang.

The stories are exciting and full of action (and more than a little violence). They are also full of witty arguments, which are often very clever and funny. I found myself laughing out loud more than a few times!

Robin Hood is a sort of trickster figure, often seen playing pranks on others that sometimes backfire.

It’s a great book! I’ll definitely be recommending it to my son once he’s at least put diapers behind him. It’s a children’s book, but it’s certainly worth the reading for adults too!

PS: Given what I knew already of the Robin Hood legends, I was surprised to find out that Maid Marian is such a non-character – at least in this rendition. She’s mentioned a few times as Robin’s girlfriend, but that’s the extent of it. I don’t think she even makes an appearance in the story, and we certainly never learn any biographical details about her!

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Muito Além do Nosso Eu 

LivroMuito Além do Nosso Eu
Autor:Miguel Nicolelis
ArtigoA cabeça como salvação
Por:Antonio Gonçalves Filho – 

Publicado no jornal O Estado de S.Paulo

Na introdução de seu livro Muito Além do Nosso Eu – A Nova Neurociência Que Une o Cérebro e Máquinas, o médico e neurocientista paulistano Miguel Nicolelis, de 50 anos, que se apresenta dia 7 de julho na 9.ª Flip ao lado do filósofo Luiz Felipe Pondé, com mediação de Laura Greenhalgh, editora-executiva do jornal O Estado de S.Paulo, deixa claro que não pesquisa o cérebro humano para compará-lo ao computador. Nenhuma máquina jamais conseguirá ser como ele, afirma. A neurociência do século 21, garante, terá de se libertar de seus dogmas atuais e abraçar, sem hesitação, a noção de um cérebro ativo e participante.

Considerado na década passada um dos 20 maiores cientistas do mundo pela revista Scientific American, Nicolelis lidera um grupo de pesquisadores do Centro de Neurociências da Universidade Duke, de Durham, Estados Unidos, para desenvolver próteses neurais destinadas a reabilitar pacientes que sofrem de paralisia corporal. Ele e sua equipe descobriram um sistema que permite criar braços robóticos controlados por meio de sinais cerebrais. Por telefone, de Durham, o professor concedeu uma entrevista ao Estado, em que falou de suas pesquisas e do livro, já à venda.

Futuro

Há 27 anos pesquisando o funcionamento da mente e desde 1994 nos EUA, onde dá aulas, Nicolelis está preocupado com a democratização do ensino e o uso da ciência, tendo proposto um programa de 15 metas para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical, entre elas a criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais e o recrutamento de pesquisadores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil. Mais conhecido como pesquisador de próteses neurais, Nicolelis tem estudado doenças como esquizofrenia, epilepsia e deficiência de atenção. Ele fala de algumas em seu livro, mas trata especialmente do avenir das pesquisas cerebrais. No futuro, diz ele, será possível conversar com uma multidão em qualquer parte do planeta sem necessidade de digitar mensagens no computador ou pronunciar uma única palavra – apenas por meio do pensamento. Não será por transmissão telepática, acrescenta, mas por meio de uma nova versão da internet, a brainet – cérebros se comunicando como no melhor dos filmes de ficção.

Nesse alucinante mundo novo, o poder dos relâmpagos cerebrais vai provocar uma tempestade. O cérebro, capaz de controlar tanto robôs como nanoferramentas, será capaz de conhecer sensações que hoje parecem impossíveis, como experimentar o toque na superfície de outros planetas sem sair de casa. No livro, Nicolelis também presta homenagem aos visionários pesquisadores que morreram ou se deram mal ao experimentar no próprio corpo drogas para estimular a atividade elétrica no cérebro, como o filósofo e escritor americano John Cunningham Lilly (1915-2001), retratado no filme Viagens Alucinantes (Altered States, 1980), de Ken Russell, em que o ator William Hurt interpreta o papel do neurocientista que explora os mistérios da mente – ele teve a sensação de navegar no próprio cérebro e viu populações de neurônios corticais disparando em uníssono, segundo Nicolelis, que nunca embarcou nessas viagens científicas sem passaporte.

Há uma longa tradição de autoexperimentação de drogas e houve até quem injetasse potássio nas veias, morrendo em seguida, ou usasse curare (composto orgânico tirado de plantas) e visse coisas interessantes como o cérebro criando um modelo de mundo, mas acredito mais na capacidade que tem o cérebro humano de criar simulações elaboradas da realidade, como defende o físico israelense David Deutsch ou o evolucionista britânico Richard Dawkins, afirma Nicolelis.

Robôs

O advento de novas tecnologias tem acelerado a remodelação desse mundo e provocado, como há milhares de anos, transformações morfológicas e fisiológicas que levam a novos processos mentais. Nicolelis implanta chips em cérebros de macacos e tem obtido resultados surpreendentes em suas pesquisas de captação e digitalização dos sinais elétricos emitidos pelos neurônios dos primatas. Uma macaca Rhesus conseguiu, dos EUA, movimentar um robô no Japão apenas com o pensamento. Isso não quer dizer que a tecnologia seja uma ameaça aos seres humanos, pois as máquinas não podem computar a mente nem reproduzir o pensamento humano, esclarece.

A aplicação prática de novos métodos, como a dos implantes de chips para estimular o cérebro dos portadores do mal de Parkinson, está revolucionando a medicina. Na Europa, há uma tendência a exagerar, a dizer que seremos substituídos por computadores, mas tudo isso é balela, argumenta o cientista, formado em Medicina pela USP e doutorado em Fisiologia Geral sob orientação do célebre César Timo-Iaria, homenageado logo nas primeiras páginas do livro, um cruzamento híbrido de autobiografia e ensaio científico, que anuncia novas ferramentas para ajudar o homem no futuro.

Novo corpo

Uma dessas ferramentas é uma espécie de avatar que poderá permitir a um tetraplégico andar por meio de comandos cerebrais enviados a um exoesqueleto, como no popular filme de James Cameron. Ele teve esse sonho em 2007 e publicou na Scientific American, lembra o neurocientista, que também fala no livro de outros experimentos extracorpóreos como o desenvolvido pelo neurocientista sueco Henrik Ehrsson.

Ele registrou experiências com voluntários capazes de existir fora de seus próprios corpos, como num transe mediúnico descrito no século 18 por outro sueco, o místico Emanuel Swedenborg (1688-1772). Desconheço as experiências de Swedenborg, mas me encontrei com Ehrsson em Estocolmo e me ofereci como voluntário, revela.

Autor: Miguel Nicolelis

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The Gathering Night by Margaret Elphinstone

One night, Bakar disappeared. His family is left alone, with only an old man to hunt for them. But then a stranger appears with a story of a great wave that killed his people, and this sets in motion a series of interweaving stories, told by the many voices of the People.

Set in prehistoric Scotland, The Gathering Night is a story about survival, as well as a community’s attempts to heal itself after a tragedy.

As I was reading, I couldn’t help but to compare this novel to Jean Auel’s Clan of the Cave Bear series. I think it might be blasphemy to say this, but I found that Elphinstone actually did a better job. Both authors try to convey a lot of “land knowledge” in their books, explaining the various things that can be eaten for example. But while Auel simply lists them in page after page of plant names, Elphinstone builds it right into the story.

The story itself is captivating. I’ve been very critical of books with multiple narrators in the past, but it works in this case. The set up for telling the story is plausible, and the narrative voices are distinct enough to feel like the story is really being told by several different people (but not so much that it feels like a gimmick).

All in all, I’d say this is a very worthwhile read. It preserves all off the appeal of prehistoric novels while avoiding many of the flaws.

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Machado de Assis – Crônicas – A + B e Gazeta de Holanda

LivroMachado de Assis – Crônicas – A + B e Gazeta de Holanda
Autor:Machado de Assis
ArtigoA sublime lenga-lenga de Machado
Por:Luís Antônio Giron

Publicado no jornal Valor Econômico

A canonização de Machado de Assis (1839-1908) ajudou a restaurar a reputação da crônica de jornal. Mais de um século de estudos machadianos criou condições de trazer à tona um gênero visto como nada nobre até bem pouco tempo atrás, sobretudo entre os pesquisadores acadêmicos. Machado de Assis – Crônicas – A + B e Gazeta de Holanda traz à luz textos raros do escritor, organizados e estudados pelo professor Mauro Rosso. Trata-se de mais um capítulo na redenção da crônica como gênero literário nobre.

Segundo levantamento do organizador, Machado redigiu crônicas ao longo de 31 anos de carreira. Publicou 384, em um total de 728 artigos, sob títulos, gêneros e pseudônimos diversos. Sua produção se estende de 26 de junho de 1859 – do primeiro de uma série de folhetins teatrais que escreveu para O Parahyba de Petrópolis – a 4 de novembro de 1900, com a famosa crônica do sineiro da Glória, publicada na Gazeta de Notícias.

A atividade jornalística corresponde ao período de elaboração de toda a sua obra ficcional, poética e teatral. Ele publicou séries de folhetins para o Correio Mercantil (1859-1864), O Espelho (1859-1860) e publicações menores. Mas sua maior produtividade se deu para a Gazeta de Notícias, diário liberal monarquista fundado em 1874 que dividia o mercado com o conservador Jornal do Commercio e o republicano O Paiz. Machado começou no jornal publicando a série de crônicas Balas de Estalo, de 1883 a 1886 – já vasculhada pelo historiador inglês John Gledson.

O volume recém-publicado traz duas séries de crônicas que se seguiram a Balas de Estalo na Gazeta de Notícias: A + B, sete crônicas em formato de diálogo publicadas entre setembro e outubro de 1886, assinadas por João das Regras, e Gazeta de Holanda, 48 textos em verso, de 1º de novembro de 1886 a 25 de fevereiro de 1888, assinadas por Malvólio. Trata-se de uma produção relativamente ignorada, que não integra, por exemplo, a edição das Obras Completas da Aguilar. A primeira série foi incluída em Diálogos e Reflexões de um Relojoeiro, de 1956, de Raymundo Magalhães Júnior. A segunda saiu nas Obras Completas de Machado de Assis, da Jackson, de 1937.

A reunião desses textos em um volume é importante para entender aquilo que Rosso denomina veia cômica do escritor e seu engajamento com a realidade sociopolítica do Brasil imperial. Mais ainda, a leitura do material (sem esquecer a série Bons Dias, entre 1888 e 1891, também na Gazeta de Notícias) permite obter uma noção do que se passava no cérebro do autor no auge de sua carreira, nos anos em que se envolveu com a redação de um de seus romances mais importantes: Quincas Borba (1892). De 1886 a 1891, ele trabalhou com a história do pensador louco e seu cão filósofo, que fez publicar nesse período na revista A Estação. Logo depois escreveria o romance Dom Casmurro (1899) durante parte de sua derradeira série de crônicas, A Semana, de 1892 a 1900.

Tanto A + B como Gazeta de Holanda trazem coleções de pilhérias e ironias que se referem a realidades cujo sentido escapam ao leitor atual. O fato é compensado pela grande quantidade de notas de rodapé. Mas, mesmo assim, pipocam passagens incompreensíveis. Na primeira série, A conversa com B sobre os mais variados temas em debate naqueles anos: desvios financeiros, falsificação de cédulas de dinheiro, emendas ao Orçamento aprovadas no Senado e o sistema parlamentar.

Os assuntos de Malvólio (nome inspirado no personagem da comédia A Décima Segunda Noite, de Shakespeare) não seguem apenas na economia e na política – a criação de um novo banco, negociatas, eleições municipais, dívidas e perdas do Tesouro, aspirações políticas frustradas, processos judiciais, eleitores fantasmas, o regimento interno da Câmara Municipal, divergência entre a Câmara e o Senado. Também abordam temas como a negligência na proteção dos animais, o aluguel de títulos universitários, a luta da capoeira nas ruas, a fuga de uma onça.

Na crônica em versiprosa de 30 de agosto de 1887, Malvólio toca em um tema delicado para o escritor: a escravatura, debatida na Câmara. A certa altura do texto, o cronista descreve o teor da discussão: Uma lengalenga longa, / Uma longa lengalenga,/ Áspera, como a araponga,/ E tarda como um capanga (…) Saiba Sua Senhoria/ Que, em coisas parlamentares/ A minha sabedoria/ Vale a de um ou dois muares. O tom de Malvólio é de desconversa e de falsa modéstia. Como sabemos, apesar de monarquista e criptodefensor da abolição da escravatura, Machado não queria se comprometer demais nesse debate. Por esses e outros motivos, o esquivo cronista adotava pseudônimos.

As crônicas machadianas colaboram na busca entre o nexo íntimo entre a criação literária e a jornalística, além de oferecer uma espécie de frescor eterno. O leitor tem a impressão de conversar com o escritor, de ouvi-lo dizer quase automaticamente suas impressões aguda, ironias s e sublimes lenga-lengas, no calor do que ocorria nas ruas do Rio no fim do Império.

Autor: Machado de Assis

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O Sonho do Celta

Livro: O Sonho do Celta
Autor:Mario Vargas Llosa
Artigo: Barbárie transformadora
Por:Cristina R. Durán

Publicado no jornal Valor Econômico

É Vargas Llosa no seu elemento. Em O Sonho do Celta, o escritor peruano e Nobel de literatura de 2010 retoma o formato de romance baseado em história real. Funcionou em outras obras, como A Festa do Bode, sobre o terrível ditador da República Dominicana, general Trujillo, apelidado O Bode. Funciona bem agora, neste livro em que ele conta a saga de Roger Casement – um irlandês cuja vida adulta percorre o final do século XIX e a primeira década e meia do XX.

Antes de se tornar um nacionalista fervoroso em luta pela independência de seu país, Casement serve ao império britânico, como cônsul, no Congo Belga e em Iquitos, no Peru, depois de uma rápida passagem pelo Brasil – descrito como o único dos três países onde a barbárie não impera. Mais do que no burocrático trabalho consular, ele ocupa seu tempo investigando como os europeus tratam os nativos, a partir de terríveis denúncias publicadas em algum jornal inglês. Assim começa a saga desse personagem que só não perde o juízo nem lhe tomam a vida graças à sua coragem e determinação.

Casement é filho de pai protestante e mãe convertida, que continua católica às escondidas. Sua personalidade, frágil na infância e juventude, se molda a partir de sua experiência no Congo Belga, onde presencia a violência a que são submetidos os nativos em nome da exploração da borracha, a serviço do rei Leopoldo II e do bolso dos capatazes.

Em páginas e páginas, Vargas Llosa descreve minuciosamente as terríveis sevícias, desmoralizações, torturas, maus tratos e extermínio que eles sofrem. O leitor, como o personagem, é mergulhado sem piedade na descoberta do que há de pior no íntimo do ser humano. Sem atenuantes, o autor mostra quanto a corrupção, a falta de leis, a exploração do homem pelo homem podem transformar as pessoas – um contraponto entre o céu e o inferno, a civilização e a barbárie.

Diante da quantidade de atrocidades que testemunha, o herói de Vargas Llosa cresce, se fortalece e passa a lutar, sem trégua, pela liberdade desses nativos e para que se faça justiça. Em seguida, o governo britânico o envia ao Peru, à região de Putumayo, onde retoma a mesma saga em terras amazônicas.

Ali, o comportamento desumano dos encarregados da Peruvian Amazon Company, empresa britânica de extração da borracha, é ainda pior. Índios são marcados a ferro e fogo. Índias são estupradas, os testículos dos homens são esmagados, todos são chicoteados, escravizados, seviciados, obrigados a carregar mais peso do que seus debilitados corpos suportam.

A essa altura, já quarentão, ele é inoculado pelo espírito nacionalista irlandês e pelo desejo de lutar pela independência de seu país, colonizado pelos ingleses. Quando volta para a Europa é nomeado sir. Mas ele já não sente vínculos com o país e se joga de corpo e alma na preparação da revolta que deveria resultar na libertação da Irlanda. Desta vez, erra a estratégia e ainda é traído. Acaba trancafiado numa cela isolada das pessoas e do barulho na Pentonville Prison. Do seu catre relembra toda a história que Vargas Llosa repassa aos leitores, enquanto aguarda o pronunciamento que decidirá seu futuro. O indulto ou a forca. A denúncia de uma vida paralela homossexual sela seu destino.

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Courage Grows Strong at the Wound, a book by Robert C. Koehler, takes us on a journey thru the human heart that focuses on transforming society’s penchant for violence — from the personal to the environment to war. It can be purchased for $25. (Xenos Press, 2010, 234 pp.)

Bob’s a member of COTO Report and keeps all of his essays at Common Wonders. Rady Ananda’s review is here.

Extreme Prejudice: The Terrifying Story of the Patriot Act and the Cover Ups of 9/11 and Iraq by Susan Lindauer is a real life spy thriller. Her May 2011 article highlights some of the events described in the book.

Susan is a member of COTO Report. See Michael Collins’ review of her book.

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 Inquisição – O Reinado do Medo

Inquisição - o Reinado do Medo - Toby Green (8539002213)


Autor:Toby Green
ArtigoO poder da paranoia
Por:Jerônimo Teixeira 

Publicado originalmente na revista Veja

Luis Carvajal e suas irmãs Isabel e Leonor foram condenados à morte na Cidade do México, em 1596. O processo começou a partir da denúncia de uma vizinha portuguesa que observara uma sucessão de indícios criminosos: no lar dos Carvajal não se comia porco e só se cozinhava com azeite de oliva, jamais com banha. Aos olhos da Inquisição, essas eram provas de que os acusados obedeciam, em segredo, à lei judaica, que proíbe o consumo de carne suína. Na Espanha, em Portugal e nas suas colônias na América, África e Ásia, os chamados convertidos ou cristãos-novos – judeus que, por convicção genuína ou temor de perseguição, aderiram ao catolicismo – foram as vítimas preferenciais dos inquisidores. Ninharias cotidianas como o uso de azeite ou o consumo de pão sem fermento bastavam para levá-los à fogueira. Os interrogatórios, conduzidos com grosseiros aparelhos de tortura que esticavam e dilaceravam os membros, tinham como pressuposto a culpa do acusado, ao qual só restava confessar suas faltas. Denúncias podiam ser apresentadas por qualquer informante anônimo – como a vizinha fofoqueira, no caso dos Carvajal. O historiador inglês Toby Green, do King´s College de Londres, vê nesse sistema uma antecipação das práticas dos regimes totalitários do século XX – mesmo de regimes que se anunciavam como ateus. O modelo de vigilância sobre os cidadãos a partir de uma rede de informantes anônimos é criação da Inquisição espanhola. E seria usado, por exemplo, pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, disse a revista Veja o autor de Inquisição – O Reinado do Medo. Resultado de extensa pesquisa nos documentos da Inquisição preservados em instituições como o Arquivo Histórico Nacional, em Madri, o livro fornece um panorama vivo e acessível de um dos mais draconianos aparelhos de repressão da história.

Autorizada pelo papa Sisto IV em 1478, a Inquisição espanhola começou suas atividades em 1480 (sua contraparte portuguesa seria criada em 1547). Na interpretação de Green, a Inquisição espanhola foi, ao contrário da Inquisição medieval, que a antecede em mais de dois séculos, uma instituição marcadamente política, ainda que amparada em justificativas religiosas. A partir do século XVI, a serviço da chamada Contrarreforma, ela passou a interrogar, torturar e matar não só os convertidos, mas também cristãos velhos suspeitos de adesão às ideias dos reformistas Lutero e Calvino. Sua função primordial, porém, foi impor violentamente uma monolítica identidade cultural e religiosa à Espanha que os reis Fernando e Isabel haviam unificado no século XV, reunindo as regiões de Aragão e Castela depois de anos de guerras civis e religiosas. Ao longo dos mais de três séculos de existência da Inquisição espanhola, o Vaticano repetidas vezes tentou limitar seus poderes – sempre com a oposição do trono espanhol.

A Inquisição na Espanha foi extinta com a invasão de Napoleão, em 1808. Depois da expulsão do invasor francês, o rei Fernando VII até tentou reinstaurá-la, mas acabou cedendo à pressão política e declarou-a definitivamente encerrada em 1820. O número de mortos e torturados pelos inquisidores é incerto, pois muitos arquivos foram destruídos. Sabe-se que o primeiro meio século de atividade foi o mais violento, com 50 0000 pessoas julgadas em toda a Espanha, e grande parte delas executada. Em Toledo, cidade de forte tradição islâmica e judaica, 10% da população teria passado pelos tribunais. No século XIX os autos de fé e as execuções haviam se tornado relativamente raros – mas a Inquisição seguia ativa, por exemplo, na censura à imprensa e aos livros. A sociedade espanhola ainda vivia sob o jugo da humilhação e do medo. O livro de Green é uma análise assustadora do poder de coerção social da paranoia.

Autor: Toby Green

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A Balada do Café Triste e Outras Histórias
LivroA Balada do Café Triste e Outras Histórias
Autor:Carson McCullers
ArtigoO coração solitário de Carson McCullers
Por:Eliana Cardoso 

Publicado no jornal Valor Econômico

A festejar o interesse renovado das editoras brasileiras em Carson McCullers. Nos últimos anos chegaram às nossas livrarias reedições e novas traduções da consagrada escritora americana: A Balada do Café Triste e Outras Histórias, tradução de Caio Fernando Abreu (José Olympio, 2010), O Coração é um Caçador Solitário, tradução de Sonia Moreira (Cia. das Letras, 2007), Reflexos num Olhar Dourado, tradução de Sonia Coutinho (José Olympio, 2010) e A Convidada do Casamento, tradução de Sonia Coutinho (Novo Século, 2008).

A escritora nasceu na Geórgia (Estados Unidos) em 1917 e morreu em Nova York em 1967. Publicou O Coração é um Caçador Solitário quando contava apenas 23 anos. O romance, muito bem recebido pelo público e pela crítica, foi adaptado ao cinema e ao teatro, e eleito um dos cem melhores romances do século XX pela Time Magazine.

Carson McCullers teve uma vida tumultuada. Casou-se com Reeves McCullers em 1937 e poucos anos depois se apaixonou por Annemarie Clarac-Schwarzenbach, a quem dedicou Reflexos num Olhar Dourado. Carson se divorciou de Reeves, com quem voltou a se casar. Planejava divorciar-se dele mais uma vez, quando ele se suicidou em 1953. Dedicou A Balada do Café Triste ao amante do marido, David Diamond.

A Balada do Café Triste continua a meditação sobre a experiência do amor, que McCullers começou em O Coração é um Caçador Solitário. Milênios atrás, Platão disse que o amor existe apenas na cabeça do amante e não nas qualidades do amado. McCullers transforma a observação platônica numa afirmação ainda mais amarga: o amado é incapaz de retribuir o amor do amante. Ao contrário, o amado tende a desprezar quem o ama.

Na Balada, uma pequena digressão do narrador oferece a teoria da autora sobre o tema: Há o amante e o amado, e cada um vem de mundos diferentes. Muitas vezes, o amado é apenas um estímulo para todo amor que, até então, permaneceu guardado no amante. E, de alguma forma, todo amante sabe disso. Ele sente em sua alma que o amor é uma coisa solitária. […] Ele deve abrigar o seu amor dentro de si mesmo num mundo interior totalmente novo, um mundo intenso e estranho, completo em si mesmo. […] As pessoas mais inesperadas podem servir de estímulo ao amor. E continua: O amado teme e odeia o amante, e com toda razão. O amante necessita desesperadamente da relação com o amado, mesmo que essa experiência não lhe cause senão sofrimento.

A perfeita ilustração dessa tragédia humana é, na Balada, a paródia do amor romântico. Os papéis do amante masculino e da mulher amada se invertem. A srta. Amélia – gigantesca mulher-macho – se apaixona pelo primo Lymon – corcunda diminuto e efeminado. Na desesperada tentativa de conquistar Lymon, a srta. Amélia o veste e alimenta. Cobre Lymon de presentes e lhe faz todas as vontades.

A história se passa numa casa velha e esquálida situada num lugarejo onde não há nada para fazer. Ali, o café da srta. Amélia funciona como símbolo do seu coração, que se acende quando ela se enamora do primo Lymon. A gente do local fica de queixo caído quando a calculista srta. Amélia acolhe Lymon e o anão passa a se comportar como o dono da casa. Ao mesmo tempo, a srta. Amélia se transforma de esperta e pão dura em hospitaleira e generosa.

Seis anos mais tarde, as luzes do café se apagam outra vez com o retorno de Marvin Macy. Marvin Macy – o homem mais bonito do lugar – fora marido da srta. Amélia por dez dias, durante os quais ela se recusara a ir para a cama com ele. Ele tinha sido um garoto problema, mas se transformara de água em vinho por amor à srta. Amélia. Quando, após o casamento, ela o rejeita, ele abandona a cidade, comete muitos crimes e é preso. Quando sai da cadeia e volta ao lugarejo, o povo da cidadezinha espera que vá haver confusão e barulho.

Para surpresa de todos, o primo Lymon se apaixona por Marvin Macy e o segue por todo lado. A srta. Amélia concorda em que os três vivam juntos. Ela sofre com o abuso a que se vê submetida, até que começa a se preparar para uma luta de boxe com Marvin Macy. Ela e Macy se enfrentam num combate feroz, que ao mesmo tempo horroriza e diverte o leitor. Parece que ela vai levar a melhor, até que o primo Lymon intervém ao se atirar sobre ela e tentar esganá-la.

Vitoriosos, Marvin Macy e o primo Lymon vandalizam o café, roubam o que podem e abandonam o local. O coração da srta. Amélia se congela e ela aumenta os preços do café, que as pessoas deixam de frequentar. Ela, então, deixa o cabelo crescer, emaranhar-se e embranquecer. Vai minguando, até adquirir a aparência dessas velhas solteironas magras e meio malucas. Depois manda um carpinteiro colocar tábuas nas portas e janelas e permanece reclusa para o resto da vida.

Como Flannery OConnor – outra voz importante da literatura do sul dos Estados Unidos, com seus contos geniais que combinam o tragicômico e a brutalidade – McCullers também tem uma visão original do mundo no qual habitam personagens grotescas dotadas de um traço físico exagerado.

Tragicômicos pares humanos são a marca mais deliberada da ficção de McCullers. Aparecem pela primeira vez em O Coração é um Caçador Solitário com o par formado por dois mudos, John Singer e Spiros Antonopoulos. Tanto Antonopoulos no Coração é um Caçador Solitário quanto Lymon na Balada do Café Triste são figuras grotescas que nos fascinam e horrorizam.

Por trás dessas figuras reside a tragédia amorosa. McCullers uma vez disse: O amor, e especialmente o amor por uma pessoa que é incapaz de responder a esse amor ou mesmo de recebê-lo, constitui o cerne de minha seleção de figuras grotescas sobre as quais escrevo – pessoas cuja incapacidade física é um símbolo da incapacidade espiritual de amar ou de ser amado – um símbolo do isolamento espiritual. Porque a reciprocidade não existe, nada acontece na Balada que possa consolar as almas feridas do triângulo formado pela srta. Amélia, o primo Lymon e Marvin Macy.

Certa vez, McCullers comentou que os americanos do sul do país sofrem de uma forma de culpa espiritual. Sofrem de solidão e isolamento, porque viveram muito tempo num sistema social que consideravam natural e justo quando sabiam muito bem que não o era. Na abertura da novela há uma referência à canção dos presos que trabalham na estrada de Forks Fall. A canção dos presos também fecha a novela. Ao servir de moldura à história, a canção dos presos dá à novela uma dimensão maior do que a do triângulo de paixões desencontradas.

Pergunta o narrador: E que espécie de grupo será esse, capaz de produzir uma música assim? Apenas doze mortais, sete homens negros e cinco brancos da região. Apenas doze mortais que estão juntos.

A voz dos presos acorrentados uns aos outros se eleva acima do sofrimento comum. Aqueles prisioneiros são menos solitários que a Srta. Amelia, mas o único momento em que brancos e negros encontram a harmonia ocorre quando estão unidos por correntes. Aqui há uma pista para a leitura da Balada do Café Triste. Seu interesse reside mais além das paixões carnais que dominam a Srta. Amélia, o Primo Lymon e Marvin Macy. A autora parece acreditar que solidariedade e harmonia resultam possíveis apenas quando as correntes criam um vínculo entre os homens.

A Balada do Café Triste é novela de lirismo assombrado e assombrador, com personagens descritos sem drama, de forma concreta e com pouquíssimos diálogos. Quase todos os eventos são rememorados em flashback.

Quando o romancista Richard Wright comentou a novela na época de sua publicação, ele colocou Carson McCullers ao lado de Gertrude Stein, Ernest Hemingway e William Faulkner. Disse ele que a qualidade do desespero de McCullers é única e individual e me parece mais autêntica do que a de Faulkner […] Ela relata incidentes de morte e atitudes de estoicismo em sentenças de tamanha neutralidade que, em comparação, até a prosa sucinta de Hemingway pareceria cálida e partidária.

Autor: Carson McCullers

 

A Balada do Café Triste e Outras Histórias
de Carson McCullers.
 

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A Beleza e o Inferno

13.05.011

LivroA Beleza e o Inferno
Autor:Roberto Saviano
ArtigoCrônicas de um escritor perseguido
Por:Márcio Ferrari 

Publicado no jornal Valor Econômico

Aos 31 anos, Roberto Saviano vive escondido e sob proteção policial. O jornalista italiano é jurado de morte pela Camorra, a máfia napolitana que denunciou minuciosamente em Gomorra. Publicado em 2006, o livro-reportagem é um best-seller mundial, transformado em filme igualmente famoso pelo diretor Matteo Garrone dois anos depois.

Os textos reunidos em A Beleza e o Inferno foram publicados na imprensa entre 2004 e 2009 e, de um modo ou de outro, refletem a condição de Saviano – de exilado interno e perseguido, de escritor inconformista e jornalista engajado. Curiosamente, a correspondência entre a situação atual de Saviano e os temas que aborda já aparece em textos produzidos antes de se tornar alvo da Camorra – como aqueles dedicados aos escritores Uwe Johnson, desafeto do antigo regime comunista alemão oriental, e Gustaw Herling, que conseguiu escapar do nazismo para cair nas garras de Stálin, conseguindo de novo se safar.

Numa introdução intitulada O Perigo de Ler, o autor investe contra a cumplicidade silenciosa de boa parte da população italiana diante das atividades criminosas enraizadas na sociedade, além de criticar o cinismo que caracteriza boa parte dos que escrevem e pessoas com as quais cresceu, que se contentaram em manter-se na superfície, em praguejar à mesa de bar, em levar a mesma vida todos os dias.

Saviani compara sua situação à de outro famoso escritor condenado à clandestinidade, o anglo-indiano Salman Rushdie, seu anfitrião numa cerimônia de apoio promovida pela Academia Sueca, que atribui o Prêmio Nobel de Literatura. Como se sabe, Rushdie, acusado de blasfêmia contra o islamismo, foi alvo de uma sentença de morte proferida em 1989 pelo então líder espiritual do Irã, aiatolá Khomeini. Escreve Saviani: A diferença entre Rushdie e mim é esta: ele foi condenado por um regime que não tolera nenhuma expressão contrária à sua ideologia, ao passo que, onde a censura não existe, o que assume seu posto é a desatenção, a indiferença, o rumor de fundo do rio de informações que escorrem sem ter capacidade de incidir.

Muitos dos artigos de Saviani falam de pessoas que foram contra correntes de resignação semelhantes a essa. São textos de admiração e enaltecimento que procuram traçar perfis modelares com fortes doses de sentimentalismo. Nessa galeria se encontram o pianista Michel Petrucciani e o jogador de futebol Lionel Messi, ambos portadores de doenças congênitas que teriam desestimulado espíritos menos nobres. Mais matizado é o retrato de Joe Pistoni, agente da lei infiltrado na máfia de Nova York retratado no filme Donnie Brasco, que Saviani entrevista num restaurante, ambos tentando parecer invisíveis.

Alguns dos melhores artigos, embora não isentos de excessos retóricos que comprometem a clareza das informações, são os que descrevem a penetração insidiosa da máfia no dia a dia. O crime organizado manipula desde pequenos comerciantes até setores inteiros da indústria, assim como o tráfico de cocaína e do lixo tóxico, responsável por ocorrências recordes de câncer e má-formação fetal em regiões do sul da Itália. Sobre a droga, Salviano afirma: É impensável continuar a observar a cocaína como uma dinâmica exclusivamente criminosa. Ela se torna um paradigma através do qual se deve compreender a economia europeia.Autor: Roberto Saviano

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Jakob von Gunten

13.05.011

Livro: Jakob von Gunten
Autor:Robert Walser
ArtigoLiteratura que não traz refúgio
Por:Márcio Ferrari 

Publicado no jornal Valor Econômico

Para grandes escritores, a própria escrita nem sempre é solução ou terapia. Quando, em 1933, deu entrada no hospital psiquiátrico onde passaria o resto da vida, o suíço Robert Walser (1878-1956) respondeu aos apelos do editor Carl Seelig para que desse continuidade à sua obra com uma frase definitiva: Estou aqui para ser louco, não para escrever. O crítico americano William H. Gass observou que nesse momento Walser fez da loucura sua verdadeira profissão.

Escrever, para Walser, era uma atividade extenuante e pouco recompensadora, como arranhar uma superfície dura para provavelmente não encontrar nada embaixo. Exemplo disso são as buscas do personagem-título no romance Jakob von Gunten, publicado em 1909 e só agora traduzido no Brasil, tido unanimemente como a obra-prima do escritor.

Nas últimas décadas, Walser, que escrevia em alemão, vem sendo um nome recorrente em textos de grandes nomes como Elias Canetti, W.G. Sebald, Susan Sontag e J.M. Coetzee. O espanhol Enrique Villa-Matas, no romance Dr. Pasavento – que aborda, essencialmente, o desejo (e/ou necessidade) de desaparecer – nomeia Walser seu herói moral. Sobre ele diz o narrador: Admirava a sua singular determinação de querer ser como todo mundo quando na realidade não podia ser igual a ninguém, porque não desejava ser ninguém, e isso era algo que sem dúvida lhe dificultava ainda mais o desejo de ser como todo mundo.

Antes de se aposentar de vez, Walser vinha desenvolvendo o que chamou de microgramas. A lápis, redigiu romances, contos, ensaios e peças teatrais numa letra minúscula, suprimindo algumas palavras e abreviando outras. (Postumamente, o trabalho de decifração de 24 páginas de microescrita deram origem a um romance de 140 em tamanho padrão, O Assaltante.) Era como se Walser tivesse cuidadosamente conduzido suas palavras a sumir aos poucos.

Jakob von Gunten é a história de um rapaz internado numa escola para empregados domésticos, inspirada em instituição semelhante frequentada por Walser na adolescência. É uma escola que, basicamente, ensina a submissão: Dão-nos a entender com toda a clareza que já a coação e as privações nos formam, e que num exercício muito simples, de certa maneira até bobo, há mais bem-aventurança e verdadeiro conhecimento do que no árduo aprendizado de conceitos e significados.

A autoridade é personificada por um diretor e sua irmã professora. Abaixo deles, há um bando de garotos. Nenhum interessa mais a Jakob do que Kraus, muito feio e pouco inteligente, mas com uma vocação admirável para a obediência e a disciplina. Jakob, ora cínico, ora crédulo, tem outro tipo de temperamento. Provoca, irrita e seduz os que estão à sua volta. O pior, para ele e para os demais, é que se diverte e se encanta com as mais desajeitadas e medíocres inclinações humanas.

Sempre comparado a Franz Kafka (que influenciou, e não o contrário), Walser compartilhava com ele a abordagem objetiva e aparentemente realista de mundos alterados – Walter Benjamin comparava os personagens do escritor a figuras de contos de fadas para quem o encanto acabou abruptamente. Em Jakob von Gunten, o narrador instala gradativamente no ambiente plausível uma loucura discreta, por meio de progressões absurdas, associações ilógicas e contradições encerradas numa só frase. Surgem também fantasias de guerra e sonhos perturbadores. Walser não encontrou refúgio na literatura e também não oferece alívio ao leitor.Autor: Robert Walser

Vermelho Amargo

 Vermelho Amargo
Autor:Bartolomeu Campos de Queirós 
ArtigoMemórias sensoriais da infância
Por:Márcio Ferrari 

Publicado no jornal Valor Econômico

Na recém-lançada coletânea de entrevistas de escritores à revista Paris Review (Companhia das Letras), ao responder a uma pergunta sobre seu gosto por personagens crianças, o inglês Ian McEwan disse: As recordações infantis são tão intensas que acho difícil esquecê-las. Se a gente estiver com a atenção suficientemente relaxada, elas se impõem.

Mesmo que venham já ficcionalizadas pela passagem do tempo, as lembranças dos primeiros anos de vida trazem uma espécie de certificado de autenticidade impresso nos sentidos: sabores, cheiros, temperaturas, cores, dores físicas. São eles os elementos recorrentes – desde o título – em Vermelho Amargo, do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. Dando ênfase a essa matéria comum da memória, o autor, nas palavras do texto de contracapa escrito pelo diretor teatral Gabriel Villela, também mineiro, nos transporta para os mil olhos do menino-narrador e, quando damos conta, é nossa infância que passa a coadjuvar seu olhar sensível.

O fato de ambos serem mineiros não é, certamente, casual. O texto de Bartolomeu tem sotaque muito local, e são os escritores e letristas mineiros, ao que tudo indica, os artistas brasileiros mais imersos nas próprias meninices. A dureza do ambiente em que vive o narrador de Vermelho Amargo, contudo, lembra mais a família rememorada pelo alagoano Graciliano Ramos em Infância.

A grande marca dolorosa é a da ausência da mãe, que morreu, substituída por uma madrasta rígida e insuficiente. A mãe era puro alimento e proteção: cortava o tomate em quatro, produzindo gomos fartos. A madrasta fatia o tomate em rodelas tão finas que chegam a ser transparentes. Um irmão mastiga vidro, uma irmã mia no lugar de seu gato mudo, outra se confunde, aos olhos do menino, com as agulhas de bordar. O pai caminhoneiro, quando não está longe, impregna os cômodos da casa com cheiro de álcool e exige dos filhos muita seriedade.

O texto curto e sem interrupções de Vermelho Amargo é difícil de qualificar. A nota sobre o autor no fim do livro, ao falar das suas outras obras, menciona prosas poéticas e livro de cunho autobiográfico. Mas nesta obra há também, claramente, elementos de ficção tradicional, como, evidentemente, os personagens (bastante numerosos para a breve narrativa), além de progressão temporal e psicológica – acompanhada rigorosamente pelo registro das mudanças de número de moradores da casa. O narrador, pouco depois da perda da mãe, experimenta também uma mudança, ao conhecer o amor físico, que se revela no porão da casa da família – só não se sabe com quem. Dessa forma, dor e prazer se misturam (quanto mais amor mais a morte se anuncia) nas lembranças, do mesmo modo que os sentidos.

Bartolomeu Campos de Queirós é um nome discreto no cenário das letras brasileiras, embora muito ativo. Já publicou mais de 40 livros, entre poesia, ficção, ensaios, antologias e didáticos. Trabalha frequentemente em projetos de cunho educativo e fundou o Movimento Brasil Literário, que tem a intenção de apoiar a democratização da leitura. Recebeu vários prêmios e condecorações, entre eles o Jabuti e o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras do governo francês.Vermelho Amargo é uma obra também discreta, delicada e rigorosa, que leva suas metáforas – a do tomate acima de todas – às últimas consequências.Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
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O Futuro da Economia 

07/04/2011

O autor do livro O Futuro da Economia, Daniel Altman, PhD em economia por Harvard, tem qualificações para fundamentar em bases razoáveis este seu exercício de previsões – começando pelo cuidado, declarado, de não incorrer no erro de imaginar o futuro olhando o que acontece no presente.

Centrou empenho, então, na identificação de referências que mostram certa durabilidade e tenderiam a estender suas influências até horizontes mais à frente.

Entre suas antevisões: depois da ascensão, a China ficará pobre; a União Europeia se desintegrará como entidade econômica; um enorme mercado negro financeiro surgirá fora dos centros tradicionais.

Fonte: Biblioteca Valor Econômico.
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The History of China Most Devastating Catastrophe

07.04.2.011

LivroMao’s Great Famine: The History of China Most Devastating Catastrophe
Autor:Frank Dikötter
ArtigoA fome que matou 45 milhões de chineses
Por:Eliana Cardoso

Publicado no jornal Valor Econômico

A história do século XX está povoada de monstros. Hitler e Stálin são os mais conhecidos, mas Mao Tsé-tung não fica atrás dos dois e deve ser incluído na lista. É difícil aceitar a afirmação do Partido Comunista Chinês de que Mao foi apenas 30% mau. Basta lembrar a grande fome que matou 45 milhões de chineses durante os três anos amargos que vão de 1959 a 1961.

Não conheço a palavra portuguesa correspondente à inglesa famine, que descreve as mortes em massa por falta de alimento. Por isso uso o termo grande fome no parágrafo anterior e no resto do texto, no qual resenho o livro do historiador inglês Frank Dikötter: Mao’s Great Famine: The History of China Most Devastating Catastrophe (Walker, 2010).

A devastadora catástrofe chinesa está ligada à política do grande salto para a frente de Mao Tsé-tung e às 26 mil comunas agrícolas de 1958. Por coincidência, em 2009, o número de estudantes chineses matriculados nos cursos de graduação universitária nos Estados Unidos também era 26 mil. Eles tinham pouca (ou nenhuma) informação sobre a importância das comunas na história de seus compatriotas que morreram de fome. Eles ficariam tão surpresos com a desgraça que tomou conta da China nos anos 1959-61 quanto as pessoas que leram Hungry Ghosts, de Jasper Becker, em 1996.

Entretanto, Judith Banster – atualmente diretora de demografia da organização The Conference Board – já tinha divulgado estimativas sobre o número de mortos na grande fome chinesa em 1984. Hoje, até a própria China reconhece a tragédia. Mas o novo livro de Frank Dikötter é importante, porque se baseia em farta documentação antes desconhecida. Ele calcula que 45 milhões de chineses morreram em consequência da fome produzida pela política econômica de Mao.

Frank Dikötter – professor da London School, em licença na Universidade de Hong Kong – obteve acesso aos arquivos de 13 das 31 províncias chinesas, em cidades importantes como Cantão e Wuhan. Nos arquivos descobriu os relatórios oficiais entregues entre 1959 e 1962 aos times que vinham de Pequim se informar sobre o que estava acontecendo nas províncias naqueles anos. Com base nos relatórios, Dikötter narra os fatos apavorantes que ocorreram na China durante os anos da grande fome.

Tudo começou com uma decisão de Mao. Na celebração do quadragésimo aniversário da revolução bolchevique, Kruschev prometeu superar os indicadores econômicos dos EUA em 15 anos. Ao ver o colega se gabar, Mao encheu o peito e declarou àquela assembleia internacional de líderes comunistas que a China iria suplantar o Reino Unido no mesmo período. De volta a casa, lançou o grande salto para a frente.

Mao abençoou um novo tipo de organização rural: a comuna. As famílias foram separadas. Homens, mulheres e crianças, abrigados em construções independentes, se veriam nas cantinas onde passariam a se alimentar. Um secretário do partido explicou: Agora que temos as comunas, com exceção dos penicos, tudo será comum, inclusive os seres humanos.

A base da estratégia maoísta foi substituir o capital por trabalho, mesmo em atividades nas quais o resultado seria o desastre. Um programa de irrigação ignorou as ecologias locais. O uso de processos deficientes na construção de represas e reservatórios acarretou o colapso, em 1960, de 3 represas de grande porte, 6 de porte médio e 223 pequenas.

Quando os cidadãos foram convocados a produzir aço no fundo do quintal, a produção agrícola do outono de 1958 apodreceu nos campos. Em setembro, 40 milhões de trabalhadores estavam operando 500 mil fornalhas. O número de trabalhadores logo subiu para 90 milhões, todos produzindo ferro tão inútil que teve de ser jogado fora. Os velhos e as crianças que tinham ficado no campo não deram conta da colheita. Sinais de fome começaram a aparecer.

Mao vivia na terra da fantasia enquanto o fracasso das 26 mil comunas gigantescas tornava-se cada dia mais claro mesmo naquelas onde a mão de obra rural poderia receber de acordo com o trabalho feito, pois o pagamento era praticamente nada. Os pontos por trabalho se desvalorizaram de tal forma que os camponeses, com medo de confisco, os gastavam o mais rapidamente que podiam: O que você come é seu, o que você não come é de qualquer um.

Enquanto isso, Mao garantia que as pessoas não se rebelariam, desde que o confisco de grãos se limitasse a 30% do que era produzido. A fome se agravava. Em 1959, 1960 e 1961, as províncias tiveram crescimento populacional negativo (que chegou a – 4% em 1960).

O colapso do transporte e comércio, a destruição de 30 a 40% das moradias rurais e urbanas e a dizimação das florestas para lenha nas fornalhas de fundo de quintal juntaram-se à situação catastrófica no campo.

Para os funcionários do partido, entretanto, a vida era uma festa. Em 1960 a província de Guizhou estava acabrunhada pela fome. Mas 260 oficiais consumiram, em apenas quatro dias, 210 quilos de carne de vaca, 500 quilos de carne de porco, 680 galinhas, 40 quilos de presunto, 130 litros de vinho, além de montanhas de açúcar e massas folhadas.

Fácil adivinhar quais eram os grupos mais vulneráveis. Crianças, mulheres e velhos. Os pais vendiam, abandonavam ou matavam os filhos que já não podiam alimentar. As mulheres eram obrigadas a trabalhar nuas em algumas fábricas. Os velhos eram enviados aos lares da felicidade, onde sofriam todo tipo de abuso. Em alguns casos, comiam-se os mortos. Em outros, matava-se o indefeso para servir de repasto.

Quantos morreram? Dikötter discute as estatísticas, inclusive as oficiais. Em 1984, Judith Banster estimou em 30 milhões as mortes excessivas, isto é, aquelas além do número de mortes que ocorreriam em circunstâncias normais e, portanto, se deviam à grande fome. Essa estimativa tem servido de base a muitos estudos acadêmicos.

Mas Chen Yizi, exilado depois do evento da praça de Tiananmen, acredita que o número é maior. Segundo ele, o relatório encomendado pelo premier Zhao Ziyang em 1980 – que nunca chegou a ser publicado – calcula os mortos entre 43 milhões e 46 milhões. Dikötter coloca o número de mortes excessivas em 45 milhões.

Como uma catástrofe de tal proporção pode ocorrer? Considere o que diz Amartya Sen. Antes de ganhar o Prêmio Nobel, Sen já era famoso por causa de seus estudos sobre as grandes fomes, em particular sobre a grande fome de 1943 em Bengala (Índia), que acarretou a morte de três milhões de indianos. Sen verificou que a produção de alimentos não caíra naquele ano, mas os preços dos alimentos haviam subido muito, enquanto os salários tinham estagnado, impedindo os trabalhadores de comprar alimentos. O exame das grandes fomes na Etiópia e em Bangladesh revela fenômenos parecidos. As grandes fomes derivadas de rendimentos reais em queda na Índia e na África poderiam ter sido evitadas com programas sociais.

Sen afirma ainda que, na Índia, depois que o país conquistou sua independência e eleições livres, as grandes fomes desapareceram. É verdade que a democracia não resolve o problema da fome crônica e das mortes por desnutrição, mas já não existem mortes em massa de centenas de milhares de pessoas por falta de alimentos, como antes de 1947. Nenhuma das grandes fomes da história da humanidade ocorreu numa democracia que funciona, escreveu Amartya Sen. Governos democráticos têm de ganhar eleições e encarar a opinião pública. Respondem, portanto, à necessidade de tomar medidas para prevenir catástrofes e reagir a elas.

No caso da grande fome da China em 1959-61, em contraste com o caso da Índia, houve colapso da produção. Mas na raiz da explicação das dimensões assumidas pela tragédia engendrada por megalomaníacos estavam também a ausência da imprensa e a inexistência de partidos de oposição. Qualquer notícia relatando uma pequena parcela do que então ocorria teria provocado violenta reação numa sociedade democrática e assistência externa. Mortes em massa provocadas por fome estão associadas à ausência de liberdades básicas. Mao merece ser lembrado como um dos grandes monstros do século XX: aquele que não apenas iniciou a maior catástrofe humana fabricada pelo homem, mas também presidiu sobre ela, de olhos bem fechados e ouvidos tampados.

Autor: Frank Dikötter

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Atlas Eólico do Espírito Santo

16 de março de 2011

Produzido em 2009 pela Secretaria de Desenvolvimento do Espírito SantoAtlas Eólico traz informações sobre características geográficas; infraestrutura; climatologia; regimes de vento; energia eólica e tecnologia; empreendimentos eólicos; o processo de mapeamento; medições anemométricas; modelos de terreno; mapas eólicos, destacando potencial a medições de 50 metros a 100 metros de altura; análises e diagnósticos; e fórmulas e mapas úteis.

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BEĨ: 'um pouco mais', em tupi

FICHA TÉCNICA

176 pp.

23 x 29 cm

Português

1a. edição

2010

ISBN 978-85-7850-053-5

R$ 120,00

TIRADENTES – UM OLHAR PARA DENTRO

Cristiano Mascaro e Humberto Werneck

Em Tiradentes – um olhar para dentro, o fotógrafo Cristiano Mascaro volta-se para aquilo que normalmente é deixado de lado nos trabalhos sobre as cidades históricas mineiras. Assim, em lugar dos altares suntuosos, das igrejas barrocas e das construções solenes, ele retrata o interior das casas de pessoas comuns, os jardins e quintais, os bares e as lojas, os detalhes das ruas e dos becos, com suas paredes, seus telhados, suas pedras. A matéria-prima do fotógrafo é o cotidiano dos moradores da cidade, os vestígios da vida que se desenrola hoje nesse antigo cenário.
Um dos maiores fotógrafos do Brasil, conhecido sobretudo por seus registros da arquitetura e do patrimônio histórico do país, Mascaro apresenta agora um livro inteiramente trabalhado em cor, em que sua elegância e rigor técnico se colocam a serviço da idéia de delicadeza e intimidade.
Completando as fotografias, a obra traz um texto de abertura assinado por Humberto Werneck, que aborda a história da cidade e do processo de criação de Mascaro.

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Mundo Financeiro – O Olhar de um Gestor

12.02.2.011

LivroMundo Financeiro – O Olhar de um Gestor
Autor:Alexandre Póvoa
ArtigoO negócio é fugir da manada, fazer poeira, remar contra a corrente
José Roberto Nassar

Publicado no jornal Valor

Alexandre Póvoa gosta do que faz. Escreveu Mundo Financeiro – O Olhar de um Gestor movido “pela paixão”. Gestor de recursos com quase 20 anos de carreira, ancorada na área de fundos de investimento, economista pós-graduado aqui e em Nova York, abre logo o jogo: “Feliz é aquele que é apaixonado pela profissão que exerce”. No senso comum, sempre haverá quem se surpreenda, pois o mercado financeiro exige que gestores, analistas etc., sejam frios e implacáveis na defesa do dinheiro dos clientes (de preferência) e das empresas. Mas Póvoa não mistura as coisas: dedicação ao trabalho não impede decisões racionais, ainda que nesse mundo a racionalidade “nem sempre seja cartesiana”. Realista, não foge de temas conflitivos. Fundamentalista, daqueles que acreditam na primazia do “valor intrínseco do papel” – para além de análises gráficas e que tais -, não corteja ilusões, nem hesita em remar contra a corrente.

Em o Mundo Financeiro (seu segundo livro), Póvoa “busca revelar, através de explanação teórica e narração de experiências próprias, alguns segredos dos bastidores” da carreira. O livro faz, assim, um sobrevoo do sistema de fundos de investimento. Dirige-se aos gestores de recursos, mas pode ser também apropriado por estudantes e/ou recém-formados – e até por investidores que já conseguiram furar a primeira camada da mata espessa do jargão financeiro. Não precisa ser lido linearmente. Pode ser consultado aos pedaços; cada bloco é um bloco. Alterna capítulos da atualidade (a crise de 2007/2008, por exemplo) com trechos de manual escolar, às vezes aprofundando-se nas tecnicalidades. Artigos, comentários e “dicas de gestão”, num estilo mais solto e provocativo, quebram a sensaboria apostilar de vários capítulos.

Vale a pena destacar alguns pontos que resumem o trabalho do gestor, alguns dos quais tendo deixado marcas pessoais no autor. Um deles é o episódio da “marcação a mercado” das cotas dos fundos de investimento (“a pior crise já vivida” pelo setor”), determinada em 2002. Decisão de 1985, não era aplicada porque os títulos públicos das carteiras mantinham equivalência entre preços nominais e reais. Como a renda fixa era fixa só para baixo – na cabeça dos investidores e de todo mundo -, o valor da cota sempre subia.

Em 2002, porém, incidentes com entidades do setor público combinados com a crescente liderança de Lula nas pesquisas instauraram um clima de incerteza e levaram pânico aos mercados – o dólar foi a R$ 4 e a Selic, a 26%. Títulos públicos de médio e longo prazos perdiam credibilidade, o valor das carteiras caía e a marcação a preços de mercado, afinal decretada para maio, significou redução em termos reais no valor da cota e até perda de capital, conforme o fundo. Cotistas se indignaram, fundos sangraram. Poucos acreditaram na Carta aos Brasileiros, em que Lula prometia estabilidade. Póvoa foi um dos que acreditaram e continuou aplicando em papéis de um ano e meio de prazo. Não confessa arrependimento, mas lamenta: foi chamado de “irresponsavelmente agressivo” quando comandava a área de investimento de uma das maiores gestoras de recursos do país (a ABN Amro).

Desse e outros episódios, Póvoa extraiu uma das muitas lições que aprendeu ao longo da carreira. “Advogo o máximo de liberdade para as instituições financeiras e não financeiras operarem, sem interferência e concorrência do governo no dia a dia dos negócios”, escreve. “Porém, isso não significa que o Estado deva se omitir em seu papel regulador, coibindo abusos e interferindo toda vez em que o sistema estiver em perigo, criando limites para a ganância quase nata dos mercados.” E acrescenta, em outra passagem: “Em um mercado tão concorrido como o nosso, autorregulação só funciona em tempos de paz, nunca de guerra”.

Semelhante distanciamento crítico aparece em outros temas sobre os quais Póvoa se debruça. É o caso dos conflitos de interesse que podem ocorrer, numa instituição, entre as turmas da gestão de recursos de terceiros, de vendas e da tesouraria dos bancos. “Por mais sérios que sejam os profissionais envolvidos, como confiar que suas opiniões sejam isentas?” Impõe-se, então, uma reestruturação, uma “separação nítida” entre os departamentos envolvidos – e, quando for o caso, punição (que nos Estados Unidos tem ido além de simples multas) para os recalcitrantes que “misturam dinheiro próprio com o de terceiros”.

É o caso também dos temas da governança corporativa e da responsabilidade social e ambiental, que elenca num só capítulo. Póvoa louva os avanços das empresas – e da própria Bolsa, com seus vários níveis e Novo Mercado. Mas, no verso dessa imagem, mostra-se bem reticente quanto ao entorno que cerca o debate. Não duvida de seu mérito, mas irrita-se diante de “modismos” e da divisão que se formou, segundo ele, entre as turmas “do bem” e “do mal” (os que não são considerados “eco-socialmente responsáveis”) – e não vê desempenho melhor em Bolsa dos índices de governança e sustentabilidade (sobram pouquíssimos fundos realmente “éticos”, afirma). “A principal função da empresa é contribuir para o crescimento através da inovação e da geração de emprego”, escreve. Esclarece, porém: a boa notícia, para ambas as turmas, é que não precisa haver “contradição entre responsabilidade corporativa e social e foco na riqueza do acionista”.

Póvoa não glamouriza o sistema (“o mercado financeiro é um segmento que normalmente atrai profissionais mais gananciosos e egocêntricos do que a média da sociedade”). Cria perfis, caricaturando os analistas, os “inimigos” da porta ao lado (ou do andar acima), pespegando-lhes pechas tipo “analista fã-clube”, “analista empresa-padrão”, “analista diretor-frustrado-de-empresa”. Aos gestores, em particular – sua atividade básica -, reserva, para além das análises críticas, palavras de estímulo, que incentivam esforço, dedicação, estudo, trabalho em equipe, transpiração sem perder a intuição. A tendência de queda dos juros numa economia que cresce e as modernidades do mundo globalizado mudam o panorama, embrutecendo a competição. Renda variável e derivativos multiplicam as alternativas para os gestores e tornam sua vida mais complicada – pois acabou a moleza dos tempos da renda fixa.

Após uma carreira de muitos anos no ABN Amro (os holandeses que compraram o Banco Real, recentemente vendido aos espanhóis do Santander) – e desde 2003 dirigindo o Modal Asset Management -, Alexandre Póvoa, entre apaixonado e prático, recomenda a seus pares, com direito a alguma escorregadela: lute todo dia pela excelência; fuja da manada (pelo menos nos cenários ainda indefinidos, nem céu de brigadeiro nem névoa densa); se for o caso, faça poeira em vez de comer poeira. Em suma: para fazer uma boa carreira, “ame a profissão, não o emprego” ou o patrão.

Autor: Humberto Mariotti

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Grandes Publicitários

08.02.2.011


LivroGrandes Publicitários
Organizador:Celso Loducca
ArtigoRevelações de mestres na arte da comunicação
Cyro Andrade

Publicado no jornal Valor

Publicitários são gente inquieta. Mesmice não é com eles. São movidos a instantaneidades, embora não deixem de prezar o planejamento (nada, porém, de prazo muito longo). Sobretudo, vivem de e para a criatividade. Tanto que criativo, entre eles, é adjetivo e substantivo ao mesmo tempo, invenção semântica, para definir o profissional de criação, na sua função específica em uma agência de propaganda, com que talvez tenham pretendido condensar a suprema virtude: aquela que se expressa pela incorporação da qualidade (o adjetivo) a um ponto de tornar-se a própria essência da individualidade (do sujeito).

Neste Grandes Publicitários, alguns dos profissionais de maior renome na propaganda brasileira, talentos revelados em diferentes circunstâncias, com diferentes resultados no direcionamento tomado por suas carreiras, falam de si, de sucesso, de fracasso, de rotinas de trabalho e fantasias vividas ou perdidas enquanto tratavam de vender ideias e projetos. Todos são entrevistados por Celso Loducca, ele mesmo um nome de prestígio na publicidade brasileira, em transcrições de conversas a dois e em seguida com os participantes de uma série de encontros realizados na Casa do Saber, em São Paulo. No final do livro, Loducca é entrevistado por Mario Vitor Santos. Com este volume, inaugura-se uma série, denominada Grandes Encontros, em que os palestrantes são profissionais de primeira importância em suas áreas, convidados para falar sobre suas carreiras e sobre a atividade em que se projetaram.

Neste primeiro livro, são entrevistados, além de Loducca: Alexandre Gama, diretor de criação, sócio e presidente da Neogama/BBH; Nizan Guanaes, presidente do Grupo ABC; Marcello Serpa, sócio e diretor-geral de criação da AlmapBBDO; Washington Olivetto, criador das agências W/Brasil e WMcCann; Roberto Justus, principal executivo do Grupo Newcomm; Fabio Fernandes, presidente e diretor de criação da F/Nazca Saatchi & Saatchi; Roberto Duailibi, sócio-fundador da DPZ; Eduardo Fischer, presidente do Grupo Totalcom; Sérgio Valente, presidente da DM9DDB; Julio Ribeiro, presidente da Talent; Alex Periscinoto, sócio-diretor da Sales, Periscinoto, Guerreiro, Fontoura, Associados e Consultoria; Luiz Lara, sócio e principal executivo da LewLara/TBWA.

Quem vive num mundo regido pela valorização cotidiana da descoberta, da invenção, da ideia – sempre uma forma de premiar o talento individual – dificilmente escapa de uma tendência, mesmo que leve, para a autocontemplação. Pela mesma razão, não são poucos, na propaganda, choques narcísicos entre egos levados a extremos de sensibilização.

A primeira pergunta que Loducca faz – Quem é você? – praticamente empurra o entrevistado para a tentação de massagear o próprio ego. Alguns conseguem resistir. Roberto Justus aproveita a deixa para dizer que, diferentemente de muitos publicitários, que têm a origem de suas trajetórias na criação, minha origem é a mesma do maior homem de publicidade do mundo, Martin Sorrell: a área de administração e finanças. E arremata: Os criativos que me perdoem, mas uma boa cabeça de negócios ajuda bastante.

Eduardo Fischer não deixa por menos: Quem me conhece mesmo sabe que para ter o melhor de mim basta falar: Duvido ou Isso aqui não pode ou Isso aqui é impossível. Aliás, impossível é uma palavra que, realmente, não falo – não conheço e não tem no meu dicionário.

Nizan Guanaes faz revelações que pareceriam improváveis em alguém supercriativo como ele: A maior felicidade é ser burro. (…) O saber, da mesma forma que alimenta, também atormenta. O saber se apodera da gente. É uma fonte inesgotável, tanto de inspiração quanto de sede. Quanto mais você sabe, menos você sabe, e menos você ousa. Mas ele sempre ousa: Sou um chato. O homem insensato tenta adaptar o mundo a ele. O sensato adapta-se a ele. Sou do primeiro time

Autor: Organizador: Celso Loducca

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23.01.2.011

Dethroning the King – The Hostil Takeover of Anheuser-Busch, an

American Icon

Livro: Dethroning the King – The Hostil Takeover of Anheuser-Busch, an American Icon
Autora:Julie MacIntosh
Artigo: Oferta hostil encontra o aliado mais que perfeito
Por Alex Ribeiro

Publicado originalmente no jornal Valor

Quando os brasileiros da InBev fizeram uma oferta hostil para comprar a cervejaria Anheuser-Busch, em 2008, o que estava em jogo era mais do que o maior mercado consumidor da bebida no mundo. A cerveja é um desses produtos que despertam orgulhos nacionalistas. A Sapporo é um ícone no Japão, assim como a Guinness na Irlanda ou a Corona no México. Para muitos americanos, a venda da companhia representou uma derrota dos Estados Unidos para um inimigo estrangeiro, uma espécie de síntese das mazelas do mundo corporativo que levaram à atual crise econômica.

A Budweiser são os Estados Unidos numa garrafa, custumava dizer o presidente da AB InBev, o brasileiro Carlos Britto, quando apenas cobiçava o controle da principal marca da Anheuser-Busch. Não temos uma placa de vende-se na porta dos Estados Unidos, reagiu a senadora Claire McCaskill, do Misssouri, onde a Anheuser-Busch está sediada, logo depois de Britto explicar pessoalmente as suas intenções de comprar a empresa.

De forma surpreendente, a Anheuser-Busch sucumbiu sem muita resistência. Até agora, creditava-se o suave desfecho apenas à habilidade com que a companhia belgo-brasileira conduziu a operação, após meses de meticuloso planejamento. Pesquisas de opinião levaram a InBev a divulgar, junto com a oferta hostil, uma carta de afago ao povo de St. Louis, assumindo o compromisso de manter a sede americana da empresa na cidade. Um herdeiro importante do clã dos Busch pulou para o lado da InBev, que deu um chamado abraço de urso, oferecendo um bom preço pelo controle. Numa tática de guerra psicológica, os brasileiros ameaçaram remover na Justiça todos os membros do conselho de administração da Anheuser-Busch.

Um livro que acaba de ser publicado nos Estados Unidos, ainda sem previsão de tradução para o português, conta um outro lado da história. Em Dethroning the King – The Hostile Takeover of Anheuser-Busch, an American Icon, a jornalista Julie MacIntosh, que cobriu a operação pelo Financial Times, revela que a InBev teve ajuda de dentro da Anheuser-Busch. Pelo que tudo indica, o poderoso August Busch III decidiu que venderia a empresa que ele próprio tornou uma gigante. Nas semanas seguintes, apenas ensaiou alguma resistência, estimulando negociações para uma fusão com a cervejaria mexicana Modelo, com o propósito único de forçar o aumento da oferta da InBev de US$ 65 para US$ 70 por ação.

Os brasileiros da InBev e a família Busch não eram completamente estranhos entre si. Em 1991, os donos da Brahma, Marcel Telles, Carlos Alberto Sucupira e Jorge Paulo Lemann, propuseram uma fusão para criar o que eles chamaram de uma Coca-Cola do mundo das cervejas. Nela, a Anheuser-Busch tomaria conta dos Estados Unidos, enquanto o trio de banqueiros de investimento do Garantia cuidaria das operações internacionais. Busch III viu excesso de audácia na proposta dos brasileiros e decidiu rejeitá-la.

Alguns anos depois, em 1994, a Anheuser-Busch estava à procura de um parceiro para distribuir a Budweiser no Brasil. As negociações com a Brahma foram muito duras, e no fim os americanos acabaram comprando uma participação minoritária na Antarctica. Eles pularam fora do negócio, porém, alguns anos depois, quando a Brahma foi adquirida pela Antarctica, numa operação que Busch III acreditava que seria rejeitada pelos órgãos brasileiros de defesa da concorrência. A falta de ambições internacionais é apontada como uma das causas que levaram a Anheuser-Busch a se tornar presa de uma oferta hostil. A companhia perdeu a chance, por exemplo, de juntar esforços com a sul-africana SAB Miller, depois de exaustivas negociações.

O livro conta uma trágica história familiar. Busch III, quarta geração da família que adquiriu e deu seu sobrenome para uma cervejaria fundada em 1852 em St. Louis, assumiu a presidência da companhia depois de fazer manobras para tomar o lugar do próprio pai. Ele fez com que a fatia da Anheuser-Busch no mercado de cervejas saltasse de 28% para 52% entre 1977 e 2002, investindo na qualidade dos produtos e, principalmente, em marketing, com comerciais que ganharam os principais prêmios da propaganda americana.

Entre os banqueiros de investimento que assessoraram a Anheuser-Busch, Busch III tinha o apelido de Crazy (louco), por seu excesso de exigência, detalhismo e crueldade com que tratava os principais assessores. Não poupava nem mesmo o filho e sucessor, Busch IV, conhecido como Lazy (preguiçoso), que presidiu a companhia debaixo da desconfiança e sabotagens do pai.

A Anheuser-Busch representa um pouco das mazelas que fizeram o capitalismo americano afundar na atual crise. Com posição dominante no mercado e margens gordas, a empresa não tinha muitas preocupações em cortar custos. Mantinha uma frota particular de jatos para uso de seus executivos, conhecida como Air Bud, gastava bastante em filantropia em St. Louis e distribuia cerveja grátis para os funcionários. Uma empresa com muito caixa e gordura é uma presa fácil, pois cria condições propícias para levantar empréstimos bancários para bancar a aquisição. Não ajudava muito o fato de que a família Busch, naquele momento, tinha apenas 4% da companhia.

Quando o controle da Anheuser-Busch sucumbiu às mãos brasileiras, Britto viajou para St. Louis e rapidamente implantou um estilo espartano. As divisórias entre os escritórios foram derrubadas, os executivos trocaram os ternos por calças jeans, houve demissões em massa e acabou a distribuição de cerveja grátis. Não preciso de cerveja grátis, explicou Britto, segundo relato do livro. Posso comprar minha própria cerveja.

Julie MacIntosh

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Nemesis

Livro: Nemesis
Autor:Philip Roth
Artigo: A tirania da contingência
Por João Pereira Coutinho

Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

Sempre que acontece uma tragédia nas nossas vidas -um fracasso amoroso, uma doença súbita, a perda de alguém que amamos- a velha pergunta regressa para nos assombrar: Por que eu? Por que a mim?.

A pergunta certa não é essa, naturalmente. A pergunta certa seria: E por que não eu?, E por que não a mim?.

Mas a nossa forma mentis está programada para recusar a tirania da contingência, para usar a expressão primorosa do narrador de Philip Roth no seu último romance, Nemesis (Jonathan Cape, 280 págs.). Aceitar a tirania da contingência, tema fulcral das obras tardias de Roth, seria destruir a crença basilar da nossa civilização racionalista: a de que tudo depende dos nossos esforços racionais rumo a um fim perfeito. E racional.

Essa crença é cultivada por Bucky Cantor, o personagem central de Nemesis. Bucky começou mal na vida: a mãe morreu no parto; o pai apodreceu no cárcere. Bucky foi educado pelos avós. Melhor: pelo avô, que incutiu nele uma inabalável crença nas suas forças e capacidades.

O resultado não poderia ser mais brilhante: física e mentalmente forte, Bucky é um Super-Homem em Newark, o território eletivo de Roth.

Claro que, para sermos rigorosos, a tirania da contingência sempre esteve presente na vida de Bucky.

Perder a mãe e o pai, mas ter avós disponíveis para uma educação de excelência, não é para qualquer um. É, digamos, uma sorte. A contingência não significa necessariamente um mal; a contingência significa apenas que existe uma margem de imponderabilidade nas condutas humanas onde o mal e o bem acontecem.

E acontece com Bucky. Depois de ter sido salvo pelos avós na infância, Bucky será novamente salvo. Dessa vez, salvo na juventude e uma vez mais por um infortúnio pessoal.

A Segunda Guerra Mundial rebenta para os Estados Unidos depois de Pearl Harbor. Mas Bucky não marcha para o Pacífico como os rapazes da sua idade. Uma visão deficiente e um excesso de dioptrias obrigam-no a ficar em casa. Um destino que Bucky aceita, resignado, embora com um sentimento de culpa que já denuncia a sua incapacidade para aceitar que nem tudo obedece à nossa exclusiva vontade. Pela segunda vez, Bucky é salvo pela tirania da contingência.

Não haverá terceira vez. Porque, se Bucky não foi à guerra, a guerra vem até ele. Não uma guerra tangível, feita de armas ou bombas; mas uma guerra imaterial, silenciosa e pestífera.

Estamos em 1944 e Newark estremece com uma epidemia de poliomielite. Falar da pólio, hoje, é o mesmo que falar de um dinossauro: uma doença de museu, não mais, depois da descoberta da vacina na década de 50.

Mas a pólio não era uma doença de museu em 1944. Era um vírus furtivo que roubava vidas e destroçava infâncias com violência inaudita.

Philip Roth é primoroso na descrição dessa peste: na descrição do medo que contamina a comunidade; do pânico que se apodera dela; da morte que se abate sobre os mais frágeis; da raiva que é cultivada pelas famílias enlutadas; e, sobretudo, da impotência dos homens para travar um castigo de Deus.

Pelo menos, Bucky acredita que sim. Faz parte da mentalidade racionalista atribuir ao divino a natureza do imponderável. Só um Deus louco, injusto e cruel pode enviar um castigo tão louco, tão injusto e tão cruel.

Mas é justificativa que dura pouco. A educação de Bucky conspira contra ele e a sua consciência exige um culpado mais terreno, mais humano. A pólio pode vir do patrão lá de cima. Mas é preciso alguém que a transporte e dissemine cá por baixo.

Esse alguém só pode ser Bucky, professor de ginástica que convive diariamente com os rapazes. E que, ao vê-los tombar, um por um, como soldados numa batalha invisível, assume em si a responsabilidade do massacre.

Lendo Nemesis, narrativa magistral de um Roth crepuscular, entendemos como a contingência só é destrutiva quando existe em nós um sentido deslocado de responsabilidade, para usar as sábias palavras do médico da história.

Ou, trocando em miúdos, só somos verdadeiramente destruídos por aquilo que não controlamos quando alimentamos em nós a ilusão de que tudo controlamos.

Agora que 2010 caminha para o fim, está encontrado o livro do ano. Autor: Philip Roth

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PREDICTABLY IRRATIONAL

Livro: Predictably Irrational
Autor:Dan Ariely
Artigo: Por que duvidamos do que diz o marqueteiro
Por Eliana Cardoso

Publicado originalmente no jornal Valor Econômico

Não sei se você já foi vítima de pequenos golpes. Eu já. Já me venderam gato por lebre mais de uma vez. No ano passado, o vendedor de uma grande rede varejista embutiu no preço da geladeira um contrato de seguro de vida que eu não queria. O contrato deveria favorecer minha mãe (que já morreu há muitos anos). O absurdo era tão flagrante que não tive problemas em anular a compra. Mas a fraude me custou tempo e bom humor.

No mesmo ano fatídico comprei um software antivírus. A única forma de efetuar a compra era com renovação automática no ano seguinte, mas o site da empresa prometia o cancelamento da renovação. Logo descobri, porém, que o cancelamento exigiria a disposição de perder vários dias na tentativa de fazê-lo.

Se empresas de renome são capazes de comportamento mesquinho e desonesto, o que pensar das empresas não conhecidas no mercado?

Professor de psicologia e economia comportamental na Universidade de Duke, Dan Ariely propõe o seguinte experimento. Imagine que ele distribua R$ 100 a cada um de quatro conhecidos – Augusto, Bernardo, Pedro e João -, e lhes ofereça também a oportunidade de ganhar mais dinheiro. Cada um é convidado a colocar os R$ 100 ou uma parcela dessa quantia num pote comum. O que cada um, em segredo, colocar no pote, será duplicado e distribuído entre os participantes. Se todos colocassem $ 100, o grupo dobraria os R$ 400 iniciais. Cada um dos participantes terminaria o jogo com R$ 200. Mas imagine que Bernardo decida não colocar seus R$100 no pote comum e os outros três o façam. Agora, os R$ 300 colocados no pote viram R$ 600 e cada participante recebe R$ 150. Bernardo, que não colocara seus R$ 100 no pote, termina o jogo com R$ 250 (os R$ 100 iniciais mais R$ 150 que cada um recebeu). Se o jogo se repete, Augusto, Pedro e João passarão a agir com desconfiança e deixarão de colocar todo o seu dinheiro no pote comum. Com isso, todos sairão perdendo, quando poderiam ter ganhado o dobro do presente inicial.

Quando uma empresa engana os consumidores, eles passam a desconfiar de todas as outras. Mas suspeito que as empresas ignoram que a confiança é um bem público: a perda de confiança numa delas tem consequências para toda a sociedade. Algumas empresas ruins são suficientes para solapar a confiança no mercado. E, uma vez destruída a confiança, é muito difícil restaurá-la.

A erosão da confiança é infecciosa. Em A Peste, Albert Camus (escritor francês e prêmio Nobel de literatura em 1957) convida o leitor a considerar a facilidade com que uma comunidade pode ser infestada por um bacilo ideológico, ou, no caso em questão nesta coluna, pela falta de confiança que destrói os elos sociais.

O romance se passa em Oran, pequena cidade da Argélia que vive a rotina monótona, onde, como no resto do mundo, por falta de tempo ou reflexão, somos obrigados a amar sem saber. A normalidade cai por terra quando os ratos agonizam e a peste bubônica alcança os moradores. O estranhamento inicial logo se transforma em horror. A epidemia lança os personagens na roleta russa do descompasso entre a busca da felicidade e a solidão do odor sufocante dos cadáveres.

Alguns críticos leem A Peste sob a perspectiva da resistência política e outros, como uma reflexão sobre a morte. Aqui nos interessa chamar a atenção para o fato de que, assim como a epidemia violenta e incontrolável pode destruir a sociedade, o veneno invisível e mortal da falta de confiança erode as instituições sobre as quais se assenta a democracia capitalista.

A desconfiança nos políticos também é como uma epidemia. O político desonesto que espalha imagem e promessas falsas com a ajuda de seus marqueteiros aumenta nossa desconfiança em relação a todos os políticos. E uma vez comprometida, é difícil recuperar a confiança.

Com certeza, o poder dos marqueteiros é limitado. Afinal, nascemos com a habilidade de ler expressões faciais e distinguir o sorriso bem treinado do sorriso espontâneo e a palavra enganosamente gentil da palavra sincera. Por outro lado, a maioria das pessoas só sabe o que quer quando vê o sujeito ou objeto em contexto. Usar o contexto adequado dá à propaganda enorme poder de persuasão.

No mundo ideal, o cidadão pode punir o político corrupto recusando-se a votar nele. No mundo real, a cobrança é limitada por três imperfeições do mercado eleitoral. A informação demora a penetrar os símbolos absorvidos por boa parte dos eleitores. Muitos não acreditam que os partidos e os políticos são de fato diferentes uns dos outros. Existe polarização entre alguns grupos que não votariam no partido do grupo antagônico, mesmo que o considerassem menos corrupto.

Mas sem política não existe vida civilizada. Salvá-la da desmoralização exige o castigo dos culpados. Como, no entanto, punir os culpados e evitar a desmoralização da política se todos os partidos centram suas campanhas eleitorais em temas religiosos e escândalos, falseiam a evidência e se recusam à discussão substantiva sobre os rumos da política econômica?

A vida civilizada exige também uma sociedade menos permissiva. É fato que, ao lado dos escândalos nas primeiras páginas dos jornais, todos os dias cidadãos comuns cometem pequenas fraudes que passam despercebidas. Há pequenos furtos de objetos no local de trabalho e pequenos e grandes desvios nos pagamentos de impostos.

Determinado a entender quão prevalentes são as pequenas desonestidades, o professor Dan Ariely montou um experimento controlado entre alunos do MIT, Princeton e Yale. E constatou que, quando tinham oportunidade de trapacear, eles o faziam. Verificou também, para sua surpresa, que a tendência a trapacear não estava ligada ao risco. E ainda mais surpreendente é que o deslize cometido pelo aluno que sabia que a destruição das provas eliminava qualquer risco de ser pego com a boca na botija era do mesmo tamanho do deslize entre os alunos que corriam o perigo de serem flagrados em falta. Ariely verificou ainda que a tendência a trapacear caía quando os estudantes eram alertados para o comportamento correto. E chegou a conclusões importantes. As pessoas de fato se importam com a honestidade, mas nosso monitor interno soa o alarme apenas diante de transgressões grandes – como levar para casa todo o estoque de canetas do escritório -, mas não diante da transgressão menor de levar só uma ou duas delas. Por isso ele acredita que as pessoas devem ser constantemente lembradas do que é o comportamento correto. Como diria Camus: Não espere pelo Julgamento Final. Ele acontece todos os dias.

As pesquisas e experimentos de Dan Ariely estão no Predictably Irrational (Harper Perennial, 2010). Ariely escreveu o livro para popularizar avanços da economia comportamental, um campo de investigação que fica na fronteira da psicologia e da economia. A economia comportamental é relativamente nova e permite explicar por que somos incapazes de poupar para a aposentadoria ou de pensar de forma clara quando sexualmente excitados.

Dan Ariely é um grande narrador, capaz de transmitir o rigor de suas experiências criativas com humor, sem esquecer as cores variadas dos detalhes relevantes. O livro foi um best-seller nos EUA em 2008 e volta em nova edição com o aval de quatro premiados com o Nobel de economia: George Akerlof, Kenneth Arrow, Daniel Kahneman e Daniel McFadden.

Em contraste com Freakonomics, que argumentava que as pessoas respondem a incentivos de maneira racional, Predictably Irrational mostra como muitos de nossos comportamentos são profundamente irracionais. Mas como muito da nossa irracionalidade é previsível, a pesquisa de Dan Ariely também ensina como corrigir erros comuns. Autor: Dan Ariely

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III FARES LAND

Livro: Ill fares the land
Autor: Tony Judt
Artigo: A falsa e insuportável leveza da política
Por Eliana Cardoso

Publicado originalmente no jornal Valor Econômico

Vai mal a terra, presa de céleres tormentos/ Onde a riqueza aumenta e o homem decai (Ill fares the land, to hastening ills prey/ Where wealth accumulates, and man decay) são versos de The Deserted Village, de Oliver Goldsmith. O poema de 1770 é também ensaio político, poderoso nos detalhes que descreve.

Tony Judt escolheu o verso como título do livro que publicou poucos meses antes de sua morte, em 6 de agosto. Ill fares the land (Kindle edition, 2010) começa com a afirmativa de que alguma coisa está profundamente errada na maneira como vivemos hoje. Durante os últimos 30 anos, transformamos a busca do interesse material de cada um em virtude. A visão economicista virou dogma e dominou os formadores de opinião a tal ponto que o enriquecimento tornou-se o único objetivo unânime da sociedade.

Mas muito do que hoje se considera normal (como a obsessão com o enriquecimento, a paixão irremediável pelo setor privado e a aceitação de disparidades gigantescas) é recente. Com certeza, nas últimas três décadas, a marca da retórica de investidores e homens públicos foi o deslumbramento com os mercados, o desprezo pelo setor governamental e a ilusão do crescimento sem fronteiras. Mas por trás dessa retórica está a herança da velha geração de pensadores austríacos. Os bisavôs dos Chicago boys aprenderam a raciocinar sob o trauma da experiência nazista e se revoltaram contra o autoritarismo econômico.

A versão simplificada de Friedrich Hayek voltou às luzes da ribalta pelas mãos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, e o mundo caiu de joelhos frente aos dois. Na verdade, o mundo, no começo dos anos 1980, andava mal das pernas. Em parte, os americanos votaram em Reagan porque estavam insatisfeitos com o crescimento dos impostos. E os ingleses, em Thatcher, porque desconfiavam do poder crescente dos sindicatos. Reagan e Thatcher não foram impingidos aos eleitores pela Universidade de Chicago. Foram eleitos para virar a situação, e assim fizeram.

O Ocidente viveu, então, décadas de prosperidade e estabilidade, protegido pela ilusão do crescimento ilimitado. A economia parecia ir de vento em popa, até que gafanhotos avaros atacaram o mercado financeiro, enquanto os pigmeus dominavam a cena política. O resultado foi a crise de 2008, a morta-viva que assombra com todo tipo de incerteza a sociedade, antes satisfeita pelos anos de bonança.

E, assim, o mundo embarcou na era da insegurança. Insegurança econômica. Insegurança física. Insegurança política. Acontece que insegurança gera medo. E o medo corrói as virtudes, como a confiança e a interdependência, que sustentam a sociedade. Se desconfiamos da honestidade dos banqueiros e da capacidade do governo de punir os ladrões, o motor do capitalismo engasga e falha.

Como agora, as décadas de 1930 e 1940 experimentaram incertezas e inseguranças que levaram o Estado a tomar medidas profiláticas no pós-guerra. E a economia do seguro-desemprego, da previdência social e da provisão de serviços de saúde surgiu na Europa e nos Estados Unidos como barreira para prevenir a volta do desastre das décadas anteriores. O Estado do bem-estar não se baseava em visão utópica do futuro nem promovia a revolução social. Os homens que o construíram não eram jovens socialistas. Eram velhos liberais que comungavam da perspectiva de Keynes, expressa antes de sua morte em 1946. Keynes dizia que, finda a guerra, a Europa tinha fome de segurança. A intervenção estatal veio satisfazer essa fome. A revolução da seguridade tomou o lugar da revolução social.

Os medos e inseguranças que os eleitores sentem hoje são diferentes dos que experimentaram nas décadas de 1980 e 1990. Estão mais próximos dos medos e incertezas que sentiram nas décadas de 1930 e 1940. Eles passaram a acreditar que o Estado se faz necessário para proteger os cidadãos, não apenas do terrorismo e dos bandidos, mas também da vulnerabilidade econômica. Portanto, parece evidente que o Estado no século XXI será mais intervencionista que o Estado mínimo da ideologia de Reagan e Thatcher. A crença de que o Estado está mais bem equipado do que o indivíduo para lidar com tarefas sociais está de volta.

Abandonar essa crença porque perdemos o sentimento de solidariedade e a fé na eficácia (embora imperfeita) da ação coletiva seria trair as gerações que vieram antes de nós e as que nos seguirão, prega Tony Judt. Ill fares the land é o grito de alguém imensamente culto e sábio que nos pede para redescobrir a linguagem que torna possível a colaboração entre os homens.

Embora discorde de várias críticas de Judt à privatização, ele está coberto de razão ao mostrar que o Estado deve fazer o que a sociedade e as economias deixadas à própria sorte não podem fazer. Pois só o Estado pode se interpor entre as forças não representativas do mercado global e o indivíduo desprotegido.

Assim como o Estado regulatório deve proteger o cidadão do poder econômico privado, a democracia política deveria proteger o indivíduo do governante. Parece que não é o caso do Brasil, onde o aparelhamento do Estado leva a fraudes em série e à quebra do sigilo fiscal. A situação pode piorar, pois a sociedade cujos políticos e a gestão pública foram desacreditados terá dificuldade em arregimentar apoio para as ações necessárias.

Enquanto isso, acompanho a disputa eleitoral. Resisto como posso ao rebaixamento de eleitor a consumidor: o que compra o candidato como quem escolhe um produto empacotado. Observo o presidente que vende sua candidata com a promessa de que o amanhã será como hoje ao cidadão cada vez mais conservador e individualista. Sem debate, a candidatura avança transvestida em fantasia de diáfana leveza.

O autor e seus livros

Tony Judt, professor de história da New York University, morreu aos 62 anos em 6 de agosto. Sofria de esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que destrói os neurônios motores e provoca paralisia gradual de todos os músculos. Movia-se em cadeira de rodas e precisava de respirador artificial, porque sua musculatura respiratória (como a do resto do corpo) deixara de funcionar. “Estou livre para contemplar, com mínimo desconforto, o progresso catastrófico da minha própria destruição”, disse ele, e continuou ditando seu último livro, Ill Fares the Land, publicado em abril de 2010.

Nascido na Grã-Bretanha numa família de imigrantes judeus, Judt instalou-se nos Estados Unidos depois de estudar em Cambridge e na École Normale Supérieure, especializando-se na história da Europa. Acadêmico e polemista, culto e independente, foi chamado de intelectual com I maiúsculo no obituário da revista The Economist do dia 12.

Os eventos que definiram sua visão do mundo foram a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Os anos que se seguiram são o tema de Pós-Guerra: Uma História da Europa desde 1945 (Objetiva, 2008).

Também em português, Reflexões sobre um Século Esquecido (Objetiva, 2010), é coletânea de ensaios que revelam duas preocupações principais. A primeira – o papel das ideias e a responsabilidade dos intelectuais – aparece nos ensaios sobre Arthur Koestler, Primo Levi, Hannah Arendt, Albert Camus, Eric Hobsbawn e na crítica a Althusser, o marxista louco que matou a mulher.

A segunda preocupação é com as lições do século XX. Embora Judt deboche da ideia de que o passado pode ser guia para o futuro, acredita que o conhecimento do passado ajuda a evitar a repetição de erros. Embora orgulhoso de sua herança judaica e de ter vivido num kibutz e servido como intérprete na Guerra dos Seis Dias, em 1967, revela-se crítico do Estado de Israel em Vitória amarga. No ensaio seguinte, O país que não queria crescer, encomendado pelos diretores do diário liberal israelense Haaretz, escreve que Israel se tornou um Estado étnico, beligerantemente intolerante e guiado pela fé. O artigo motivou enxurrada de respostas. As mais histéricas vieram dos EUA. As reações de Israel foram mais moderadas. Autor: Tony Judt

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O QUE OS ECONOMISTAS PENSAM  SOBRE A SUSTENTABILIDADE

Da Agência Ambiente Energia – Se na prática ainda não entrou totalmente na agenda de governantes, políticos e empresários, pelo menos no discurso de quase todos sustentabilidade virou um tema da ordem do dia. Por conta das mudanças climáticas e da busca por negócios sustentáveis em todas as áreas, fala-se numa nova economia, baseada na baixa emissão de carbono em todas as atividades humanas. Como será esta economia? Como precificar esta economia de carbono zero?, Quais são os impactos das novas tecnologias para esta mundo mais sustentável?. São perguntas que, certamente, passam na cabeça de muita gente. Mas, enfim, o que pensam os economistas sobre esta nova era da economia?

Quem procurou a resposta foi o jornalista Ricardo Arnt, ao reunir como organizador 15 grandes economistas brasileiros para tirar da gaveta o livro “O que os economistas pensam sobre sustentabilidade”, publicado pela Editora 34. Com larga experiência na área de economia, Arnt, além de trazer a questão para a seara econômica, tem a proeza de reunir uma nata formada por Antonio Delfim Netto, André Lara Resende, Edmar Bacha, Eduardo Giannetti, Luciano Coutinho, Gustavo Franco, José Roberto Mendonça de Barros, José Eli da Veiga, Luiz Gonzaga Belluzzo, Maílson da Nóbrega, Aloizio Mercadante, Sérgio Besserman Vianna, Pérsido Arida, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Ricaro Abramovay.

No livro, este time de primeira discute, em entrevistas concedidas ao jornalista, a emergência das teses de sustentabilidade e seu discurso transformador, porém, frequentemente vago, genérico e sujeito a variadas interpretações e apropriações. Os economistas mais tradicionais, na obra, mostram como encaram as novas propostas, por que as aceitam ou refutam e o que consideram necessário, viável ou utópico. Já os economistas mais engajados com a agenda ambientalista apresentam suas críticas à teoria econômica.

Apesar das diferenças na hora de encarar a questão e a base conceitual que ampara as análises de cada um, o livro deixa uma boa indicação do que é preciso para alcançar o desenvolvimento sustentável, tão propalado por governantes, investidores, empresários e políticos: a qualidade do debate precisa evoluir, sendo necessário ampliar a discussão, superar impasses e construir consensos. E este bom debate, com certeza, temos neste livro de Ricardo Arnt. Já é um grande começo para entendermos esta nova ordem econômiza.

Ficha técnica

Título: O que os economistas pensam sobre sustentabilidade
Organizador: Ricardo Arnt
Editora: Editora 34
Número de páginas: 288
Preço: R$ 44,00
Site: http://www.editora34.com.br
Telefone: (11) 3032-7106

Inovação no Brasil e na Coreia do Sul

Livro: Inovação no Brasil e na Coreia do Sul
Autor:Rafael R. Dubeux
Artigo: Educação e parceria de empresas deram vantagem a asiáticos
Por Verena Fornetti

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo

Brasil e Coreia do Sul têm em comum a industrialização tardia, a política econômica e científica orientada por ditaduras militares em meados do século passado, a abertura política nos anos 80 e a liberalização comercial feita só na década de 90. O que diferencia, a partir daí, a trajetória dos países?

Hoje, o Brasil é apontado como nova força política e econômica, mas ainda tem gargalos que ameaçam o futuro brilhante apontado pelos mais otimistas. Já a Coreia do Sul avançou de forma mais consistente e, pelo menos de acordo com a classificação do FMI (Fundo Monetário Internacional), superou o rótulo de país emergente.

É a questão de partida para o pesquisador da Universidade de Brasília Rafael Ramalho Dubeux, que lança Inovação no Brasil e na Coreia do Sul – Efeitos do Novo Regime Internacional de Patentes Sobre as Estratégias de Desenvolvimento Econômico.

Para ele, investimento em educação e sinergia entre academia, governo e empresariado foram os caminhos que permitiram ao país asiático se firmar como produtor de tecnologia de ponta após o endurecimento das regras internacionais sobre patentes, a partir de 1994.

O modelo de industrialização é outro fator apontado para a vantagem coreana. Se o modelo nacional foi pautado pela substituição de importações, o asiático se baseou na produção para exportação -o que obrigou o país a estreitar os laços com outros mais desenvolvidos.

Institutos de pesquisa públicos, com incentivos fiscais e crédito dirigido do governo da Coreia do Sul, em colaboração com as empresas, formaram o que o autor endossa como a tripla hélice do desenvolvimento a partir de meados dos anos 80. No Brasil, diz ele, essa sinergia só recentemente se amplia.

A produção científica brasileira é robusta. Mas ainda não se traduz em inovação tecnológica. À Folha, Dubeux também disse que a parceria entre academia e setor privado ainda é tímida, assim como os investimentos em educação foram pífios historicamente. Mas afirma que nasce uma mentalidade mais favorável à inovação.

As instituições no Brasil são muito apartadas, mas a aproximação é inevitável. Dubeux cita a interação entre a Embraer e o ITA e entre a Coppe-UFRJ e a Petrobras como bons exemplos dessa integração.
Autor: Rafael R. Dubeux

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Ficando para Trás

Livro: Ficando para Trás
Organizador: Francis Fukuyama
Artigo: Por que somos assim
Por Diogo Schelp

Publicado originalmente na revista Veja

Nas ciências políticas e econômicas, há um enigma que, se decifrado, poderia resultar na fórmula definitiva para o sucesso das nações: por que a América Latina não prosperou como os Estados Unidos?

A pergunta já mereceu a atenção de estudiosos de todos os matizes ideológicos e, na maioria das vezes, levou a respostas esquemáticas, mágicas. Uma das teorias em que os latino-americanos mais gostam de acreditar, apesar de todas as evidências em contrário, afirma que seu atraso é culpa da exploração e do imperialismo de Washington. A perpetuação dessa ideia equivocada só serviu para abastecer o sentimento antiamericano e não criou nenhuma solução real para os desafios da região.

O livro Ficando para Trás é um antídoto contra as explicações fáceis para a disparidade econômica e social da América Latina em relação aos Estados Unidos. Organizada pelo cientista político americano Francis Fukuyama, a obra reúne análises de dez especialistas, metade deles latino-americana.

Com boa argumentação e dados fartos, os autores dedicam grande espaço para definir quais fatores não servem como explicação para o descompasso no continente. São três as teses descartadas. A primeira é a que atribui as diferenças à geografia. Segundo essa visão, fatores como o clima tropical e a proliferação de doenças atrapalharam o desenvolvimento dos países que, hoje, são classificados como pobres. O determinismo geográfico não se sustenta porque, nos primeiros séculos após o descobrimento da América, muitas colônias espanholas eram mais ricas do que as inglesas. Além disso, países como a Argentina, de clima temperado, não se encaixam na descrição fatalista acima.

A segunda tese equivocada, conforme os autores de Ficando para Trás, é a que culpa o papel desempenhado pelos Estados Unidos na América Latina após o fim do período colonial. Ainda que seja verdade que a política externa americana cometeu abusos e interfiriu militarmente na América Central em mais de uma ocasião, o mesmo não aconteceu no México, no Brasil e na Argentina. O argumento que esses países foram prejudicados por um suposto sistema de dependência comercial em relação aos Estados Unidos não convence porque o mesmo tipo de integração econômica existiu com outras regiões, como o Leste Aiático, que estão se desenvolvendo rapidamente. Finalmente, a terceira tese furada é a que atribui o atraso latino-americano ao catolicismo, em princípio pouco propenso a absorver a benéfica combinação de valores capitalistas e democráticos. Para refutar essa explicação, há o fato de que, em todo o mundo, a maioria dos países que se democratizaram a partir da década de 70 tem o catolicismo como cultura religiosa predominante.

Houve, sim, um outro aspecto cultural que ajudou a definir os desempenhos díspares de Estados Unidos e América Latina.

No ensaioBandeirantes e Pioneiros, de 1954, o escritor Vianna Moog demonstrou que os colonos ibéricos estavam mais interessados no extrativismo ou na escravização dos índios, enquanto os ingleses tinham um apego maior à nova terra, que eram obrigados a cultivar por conta própria. Isso deu origem, na América britânica, a direitos de propriedade e estrutura de governo mais sólidas do que no resto do continente. Essa cultura política pode ter sido a base para os três fatores que, mais tarde, definiram o sucesso americano: instituições formais (leis, sistema político) e informais (disposição da população de respeitar as leis); decisões políticas adequadas ao florescimento capitalista (abertura comercial, por exemplo); e estrutura social mais igualitária (alcançada com o foco na educação). Da ausência desses elementos nasceu o paradoxo latino-americano, que o mexicano Enrique Krauze descreve assim no prefácio do livro: “A América Latina é o Ocidente, mas permanece à sua margem”.

Autor: Francis Fukuyama

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